Embora não se saiba ainda se a dupla recém-eleita Biden/Harris já tenha delineado a sua política africana, pode-se esperar que se revertam os orçamentos para programas para o Continente e aumentem e melhorem as condições de visto para a maioria dos cidadãos de países africanos.

O resultado destas eleições criaram expectativas em África, mais ou menos altas, segundo os países e as leituras que uns e outros analistas e comentadores possam fazer.

As minhas são baixas, acredito que o governo Biden/Harris melhore as relações Estados Unidos-África, pelo menos ao nível em que estavam durante a administração Obama.

Penso que provavelmente na política EUA-África permanecerá o eixo focado em conter a influência da China embora mais centrado nas vantagens comparativas dos Estados Unidos em vez de ataques sistemáticos contra a presença chinesa no continente e antevimos que se mantenha o apoio na luta contra grupos terroristas no Corno de África e no Sahel.

As propostas de políticas energéticas, conhecidas como o Novo Acordo (New Deal) Verde, e com elas o fim dos atuais subsídios para empresas de combustíveis fósseis, embora possam resultar num primeiro impacto negativo para os produtores de petróleo do continente, virão seguramente a impulsionar de forma decisiva investimentos em energia renovável.

Creio que também haverá espaço na nova administração para a negociação de acordos recíprocos e vantajosos de livre comércio com a África, tanto a nível bilateral como regional.

Espero que a Lei de Melhor Utilização de Investimentos para o Desenvolvimento de 2018 (Lei BUILD) e que tem um teto de 60 mil milhões de dólares para projetos de infraestrutura e que foi utilizada como uma resposta aleatória ao financiamento da infraestrutura africana pela China, seja agora utilizada de forma voltada para o desenvolvimento sustentado e com impacto transformacional do continente.

Para além do mais, mas não menos importante, antevejo uma relação de respeito mútuo e neste quadro o fim da “perseguição” sistemática aos líderes africanos das organizações internacionais, esperando que a nova administração concorde com a nomeação de Ngozi Okonjo-Iweala da Nigéria para o cargo de Diretora Geral da Organização Mundial do Comércio e até agora bloqueada por Trump.

Pelo que a dupla Biden/Harris tem dito espero que o multilateralismo possa voltar a estar de volta o que significaria, por exemplo, o regresso dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, á Organização Mundial de Saúde e o apoio dos Estados Unidos a que as Nações Unidas pudessem financiar de forma sustentável as operações de manutenção de paz da União Africana (UA).

Vários media e comentadores americanos preveem que a afroamericana Susan Rice ─ que impulsionou e modelou a política africana dos governos Clinton e Obama─ possa vir a ser a Secretária de Estado (Ministra dos Negócios Estrangeiros).

Segui a entrevista que ela deu à CNN no Sábado (7/11) e embora tenha dito que o importante era a vitória Biden/Harris e as mudanças que, segundo ela, dai virão, mostrou-se disponível a contribuir, segundo as necessidades do novo locatário da Casa Branca.

Finalmente e apesar das acusações (infundadas) de fraude, de ter sido retirado ar pelas maiores cadeias televisivas americanas, do desespero das manobras legais e de não ter (ainda) feito o tradicional telefonema a reconhecer a sua derrota e a dar os parabéns ao vencedor, está de saída o presidente que nunca visitou o continente, quase não recebeu líderes africanos, que se referiu aos Estados africanos e ao Haiti como “países de merda” (sic), não deu aos problemas africanos qualquer prioridade, reduziu drasticamente os programas de ajuda ao continente e limitou a imigração africana e cuja única preocupação com África, para além do terrorismo, foi implicar os países africanos numa “guerra” com a China, ao propor ajuda para combater a Covid-19, em troca de distanciamento africano em relação a Pequim.

A terminar espero que se recupere e restaure a cimeira com líderes africanos, uma plataforma que pode mobilizar investimentos, dar visibilidade ao potencial do continente e aos afroamericanos ─que nos últimos quatro anos atravessaram um período difícil ─ um sentimento reforçado de inclusão.

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