Angola enfrentava uma tempestade perfeita no início deste ano… e depois veio a pandemia. Foi assim que a ministra das Finanças de Angola explicou o que se estava a passar no país, o que levou o kwanza a depreciar-se fortemente neste e no ano passado, a economia a bater o quinto ano consecutivo de recessão e a dívida pública a galopar para mais de 100% do PIB, depois do pedido de ajuda ao FMI e da adesão ao alívio da dívida do G20.

“Entre 2014 e 2017 tínhamos um quadro de contas públicas deterioradas, o Produto Interno Bruto a contrair, a taxa de câmbio num nível artificial, um setor não petrolífero bastante incipiente, tínhamos uma tempestade perfeita, com todas as condições para correr mal, e daí o pacote de reformas para restaurar equilíbrios e captar fluxos de financiamento, quer pelo endividamento, quer pelo investimento”, disse Vera Daves de Sousa na conferência promovida pela Universidade Católica sobre a economia de Angola.

Durante a intervenção, Vera Daves explicou como Angola chegou à crise em que está, e o que está a ser feito para o país regressar ao crescimento talvez não já em 2021 mas seguramente em 2022.

“Recuemos até 2014, uma tempestade perfeita que foi o ponto de partida” para a situação atual, disse a governante, explicando que “foi aí que se sentiu o impacto da queda estrutural do preço do petróleo, por causa dos avanços tecnológicos na indústria, e desde então nunca mais voltámos a ter o barril a 100 dólares”.

Verdade. O preço do barril na semana passada estava perto dos 50 dólares, mas para um país que precisa de petróleo caro para rentabilizar os investimentos das petrolíferas nas águas ultraprofundas, o preço atual ainda é demasiado baixo.

A isto soma-se tudo o resto, diz a ministra: “O rácio da dívida sobre o PIB ultrapassou o limiar de segurança dos 60%, o défice primário [antes dos juros] passou os 6% e entre 2014 e 2017 as reservas internacionais líquidas reduziram-se para metade” devido à liberalização parcial do kwanza, cuja queda foi amparada precisamente pelas reservas em moeda estrangeira.

“Este é o quadro: contas públicas deterioradas, PIB a contrair, taxa de câmbio num nível artificial, e um setor não petrolífero ainda bastante incipiente, uma tempestade perfeita com todas as condições para correr mal”, resumiu a ministra.

E assim entramos em 2020. Angola deverá enfrentar uma recessão de 5% e a dívida pública vale mais de 100% do PIB, disparada pela queda do kwanza e pelo endividamento dos últimos anos.

O cenário negro, ainda assim, não assusta a ministra, que promete melhores dias depois de um ajustamento difícil e que será muito duro para muitos angolanos.

“O pacote de reformas vai restaurar os equilíbrios e capitar fluxos de financiamento, quer pelo endividamento, quer pelo investimento”, garante Vera Daves de Sousa.

A adesão às iniciativas de alívio da dívida, nomeadamente com o G20, o Fundo Monetário Internacional e a China, dão espaço de manobra, mas não mais do que isso, pelo que é preciso trabalhar nas reformas e ter excedentes orçamentais.

“É isso que nos vai permitir desacelerar o ritmo de endividamento e, com a liquidez acrescida, ir limpando o serviço da dívida, amortizando e sem ter necessidade de contrair nova dívida”, explica a ministra, admitindo que até 2023 o rácio vai continuar acima dos 100% do PIB.

A chave, conclui, é meter a economia a crescer: “O nosso compromisso tem de ser com o crescimento da atividade económica, essa é a chave, por essa via e sustentado num sistema fiscal robusto, moderno e integrado”.

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