Cerca de duas dezenas de acordos entre a Guiné-Bissau e a Cabo Verde poderão sair da “gaveta”, onde estão há vários anos, com a visita oficial no início de 2021 do Presidente cabo-verdiano, Jorge Carlos Fonseca, ao país “irmão” que partilhou a luta pela independência.

“Esta visita será o ponto mais alto desta nova página que, direta e indiretamente, vai elevar o patamar das relações entre os dois países, que já partilham laços históricos e políticos”, afirmou ao Mercados Africanos o embaixador da Guiné-Bissau na Praia, M’Bála Fernandes.

O Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, anunciou em 01 de dezembro que vai visitar a Guiné-Bissau “no início do próximo ano”, naquela que será a sua primeira deslocação ao país desde a chegada ao poder de Umaro Sissoco Embaló. No início de novembro, o Presidente da República da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, formalizou o convite ao homólogo de Cabo Verde para uma visita oficial ao país para reforço dos “laços históricos” entre os dois Estados.

Para o embaixador da Guiné-Bissau em Cabo Verde, esta será a primeira visita “ao mais alto nível” em vários anos e em simultâneo “uma viragem” no reforço das relações entre os dois países, cujos laços históricos foram reforçados durante a luta, comum, contra o regime colonial português, com a figura do nacionalista Amílcar Cabral como referência para ambos os povos.

Embora o regime político que vigora nos dois países seja semipresidencialista, sem que os respetivos chefes de Estado assumam o poder executivo, M’Bála Fernandes acredita que a visita de Jorge Carlos Fonseca, com um programa “intenso” e dedicado a várias áreas, terá uma “carga política” que permitirá fechar “vários acordos”, em diferentes setores, até agora “engavetados”.

“São mais de duas dezenas de acordos, alguns já desatualizados, que estão adormecidos. Esta visita ao mais alto nível tem um aspeto simbólico, mas permite aos dois governos pôr em prática acordos adormecidos”, apontou.

A visita de Jorge Carlos Fonseca, ainda sem data concreta, deverá ficar marcada pela abertura da primeira Embaixada de Cabo Verde em Bissau, três anos depois de abrir portas a Embaixada guineense na Praia, num programa em preparação e que vai envolver atividades políticas, culturais, turistas e económicas.

“Para mostrar uma nova era da relação entre os dois países, além da relação histórica”, assumiu o embaixador.

Esta será a primeira visita oficial do Presidente cabo-verdiano à Guiné-Bissau desde a chegada ao poder de Umaro Sissoco Embaló, que já tinha convidado Jorge Carlos Fonseca para a sua tomada de posse, no início do ano, então marcada por uma crise pós-eleitoral, mas que não se concretizou.

Jorge Carlos Fonseca termina o mandato em outubro de 2021, ano marcado por eleições legislativas e presidenciais em Cabo Verde. Em 22 de novembro de 2019, o último dia de campanha para a primeira volta das eleições presidenciais na Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló esteve algumas horas na Praia, tendo sido recebido pelo chefe de Estado cabo-verdiano.

Voltou à Praia em 11 de janeiro de 2020, após a segunda volta das eleições guineenses, e de novo para se reunir com o Presidente cabo-verdiano no Palácio Presidencial, tendo na altura convidado Jorge Carlos Fonseca para a sua tomada de posse.

 

Relação entre dois países movimenta milhares de guineenses

 Perto de 10.000 guineenses vivem e trabalham em Cabo Verde, mas o ‘velho’ problema da falta de documentos mantém-se, tendo mesmo sido agravado pela pandemia, com . Segundo M’Bála Fernandes, “estima-se” que 60% dos guineenses em Cabo Verde estão em situação irregular, sem documentos, apesar das tentativas dos dois países de promover a legalização.

Trata-se da maior comunidade imigrante em Cabo Verde, que vive e trabalha sobretudo nas ilhas da Boa Vista e do Sal, na restauração, mas também em Santiago e São Vicente, na construção civil e em empresas de segurança.

“Apesar de todas as dificuldades documentais, vivem em segurança, numa terra que lhes acolheu, onde trabalham, constituem famílias”, garantiu o diplomata, reconhecendo que o excesso de burocracia tem dificultado esta legalização, apesar dos processos extraordinários lançados por Cabo Verde em 2010 e 2015.

Apesar das dificuldades provocadas pela falta de documentos e agora pela crise decorrente da pandemia de covid-19, que atirou muitos guineenses em Cabo Verde para o desemprego, estes sentem-se “seguros” no arquipélago.

Oficialmente, a Embaixada na Praia conta com 6.528 imigrantes guineenses inscritos, mas M’Bála Fernandes aponta que o número real pode chegar aos 10.000.

“É uma comunidade bem integrada socialmente, sem problemas de criminalidade”, concluiu.

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