África do Sul, o mercado a explorar em 2022.

Com mais de 60 milhões de habitantes, a África do Sul é a economia mais desenvolvida, diversificada e industrializada e com a classe média-alta mais numerosa do continente africano.

Os três principais polos urbanos do país, Joanesburgo, Cidade do Cabo e Durban, concentram o essencial da população, assim como da atividade económica do país.

É por isso um importante mercado, nomeadamente pela sua dimensão, abundância de recursos naturais (diamantes, ouro, platina, carvão, entre outros), desenvolvimento dos sistemas jurídico e financeiro, rede de infraestruturas satisfatória e eficiência do sistema de comunicações e de transportes que permitem uma distribuição de bens e serviços eficiente.

O mercado sul-africano oferece dessa forma, múltiplas oportunidades de negócio para as empresas dos PALOP em diferentes setores de atividade, nomeadamente nas energias renováveis, saúde e produtos farmacêuticos, casa, moda, calçado e automóvel.

 

O país e o seu potencial

A África do Sul é a mais diversificada economia africana e uma das maiores do continente, com um PIB sustentadamente de mais de 300 mil milhões USD, provavelmente com a única classe média digna do nome, com milhões de consumidores sofisticados e possivelmente a única com um ambiente de negócios internacionalmente reconhecível.

Neste mercado um contrato é um instrumento protegido pela lei e pelos juízes (e não uma precária troca de favores, à mercê do parceiro local), os bancos são bancos, as estradas são estradas, em quase todo o país se pode beber a água da torneira, os hospitais são hospitais e, em suma, – na economia formal, multirracial – a vida assemelha-se aos padrões que conhecemos nos países desenvolvidos.

É também um país de enormes contrastes e problemas, por herança histórica a que políticas seguidas nas últimas décadas nem sempre conseguiram dar resposta, o que em parte explica as tensões persistentes – que também aguçaram a resiliência da sociedade civil e a capacidade de resposta dos agentes económicos.

É um país onde há violência endémica, como infelizmente conhecemos noutras partes do mundo. Mas é um país onde esses desafios são geridos, como se conclui pelo fluir da vida e pela observação dos muitos carros descapotáveis e motas caras que vemos circular sem qualquer proteção, a disfrutar do excelente clima que o país também tem.

Pretória é a segunda maior capital diplomática mundial (com mais de 140 Embaixadas residentes, só ultrapassada por Washington) e não o seria se não tivesse qualidade de vida. A África do Sul é além disso a maior plataforma de apoio aos negócios no subcontinente, da logística até à banca, dos serviços jurídicos até aos recursos humanos.

O país é um produtor e exportador de agroalimentar de qualidade e detém seguramente a melhor rede de estradas da África Austral, os maiores portos e aeroportos e as melhores ferrovias.

A internet existe e funciona em quase todo o país e a passagem ao 5G está a começar e é também uma plataforma de startups que pode complementar o interesse no mercado por quem aí quiser investir.

Em termos políticos, os anos da corrupção da “State Capture” ficaram para trás, depois da sociedade ter mostrado uma saudável intolerância a tais fenómenos. Com o Presidente Ramaphosa, o país é governado por um antigo homem de negócios que afirma que não é o Estado, mas sim as empresas que criam emprego.

A África do Sul, é um país que assume a noção de que há novas áreas de oportunidade a explorar, desde a economia azul até à captação consequente do seu elevado potencial em energias renováveis – que lhe permitirão não só acabar com os nefastos cortes de energia, como pensar em avançar para novas fileiras, como o hidrogénio verde.

Sendo um país que também é exportador de matérias-primas, tem visto que os recentes sobressaltos na Economia Mundial não são todos em seu prejuízo (pela valorização das commodities).

 

As potencialidades de mercado

O contexto geográfico da África do Sul, situando-se no extremo sul do continente africano, entre dois oceanos – Atlântico e Índico –, e partilhando fronteiras terrestres com seis países, contribui para que se assuma como principal porta de entrada para os mercados da África Subsaariana.

Em termos de dimensão, o país possui uma superfície quase duas vezes e meia superior à de França e uma população de mais de 60 milhões de habitantes, o que representa cerca de um sexto do total da população da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

A África do Sul encontra-se plenamente integrada na rede de organizações económicas regionais, através da sua pertença à já referida SADC e ao acordo da União Aduaneira da África Austral (SACU), que envolve igualmente o Botsuana, o Eswatini, o Lesoto e a Namíbia.

A uma escala maior o país já aderiu formalmente à recentemente implementada Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), sendo igualmente membro da Organização Mundial do Comércio (OMC) e único país africano membro do G20 e dos BRICS.

A economia sul-africana é considerada uma economia de mercado aberta (o Comércio Externo de bens e serviços representa mais de 60 por cento do PIB), diversificada e assente no setor terciário, que assume um peso de cerca de 70 por cento do PIB, com contribuições do setor secundário e primário para o PIB na ordem dos 20 por cento e 10 por cento, respetivamente.

O setor dos serviços, em crescimento, representa de longe o maior empregador do país e as empresas locais, se bem que, confrontadas com baixos ganhos de produtividade, são tradicionalmente bem geridas e apoiam-se nos setores bancário e financeiro de alto nível.

A título de exemplo, 59 das 100 maiores empresas africanas são sul-africanas e a bolsa de valores de Joanesburgo (JSE), a maior do continente, é igualmente uma das vinte maiores bolsas de valores do mundo.

Porém, os efeitos da pandemia da COVID-19 não deixaram de se fazer sentir, principalmente em 2020, quando se verificou uma contração de 6,4 por cento do PIB sul-africano. Em 2021, a taxa de crescimento do PIB já foi de 4,9 por cento, estando previsto um crescimento de 2,0 por cento em 2022.

A atual conjuntura global negativa impactou também alguns dos problemas estruturais que o país enfrenta, nomeadamente uma taxa de desemprego elevada – atingiu no quarto trimestre de 2021 o nível historicamente alto de 35,3 por cento – contribuindo assim para o incremento das desigualdades sociais no país.

A estes problemas estruturais, soma-se um défice energético crónico em consequência da falta de investimento na infraestrutura energética do país e do peso excessivo (mais de 80 por cento) que o carvão representa no mix energético do país, o que tem provocado disfuncionamentos graves, por exemplo, na atividade da indústria local.

Ainda assim, a África do Sul obteve em 2021 uma performance comercial excecional. O aumento, entre 2019 e 2021, de 8,4 por cento das suas importações globais de bens coincidiu com o crescimento de 40,6 por cento das suas exportações em igual período. Os setores das indústrias extrativa e química, da agricultura e da indústria automóvel foram os que mais contribuíram para este feito.

 

As Energias Renováveis

Nos últimos anos, a África do Sul viu-se confrontada com uma situação de défice energético crónico, impactando negativamente a indústria local e o crescimento económico do país.

Esta situação deve-se ainda ao facto de ser o 14º maior emissor de gases com efeito de estufa do mundo, com mais de 80 por cento da eletricidade produzida no país ter origem em centrais a carvão.

Procurando melhorar o seu fraco desempenho ambiental, o país iniciou o processo de descarbonização assumido nos Acordos de Paris e desenvolveu uma oferta energética capaz de preencher o seu défice energético.

Neste cenário, o desenvolvimento do setor das energias renováveis surge no topo das prioridades das autoridades locais, tendo estas multiplicado a partir de 2021 medidas de reestruturação do mercado da energia sul-africano, permitindo o advento de novos modos de produção de energia no país.

A recente liberalização do mercado de produção e o fornecimento de eletricidade anunciada pelo presidente Ramaphosa é exemplo disso, por permitir a entidades privadas gerirem uma capacidade instalada de produção de eletricidade para autoconsumo até 100 MW – quando o limite anterior era de 1 MW – e escoar para a rede pública os seus excedentes de produção.

Na sequência desse anúncio, diversos projetos de auto geração elétrica começaram a ser estudados e desenvolvidos, principalmente pelos grandes grupos mineiros e industriais presentes no país.

Para além dos projetos de grande dimensão (principalmente de fonte solar ou eólica), para os quais as parcerias com os principais players internacionais são essenciais, existem igualmente diversas oportunidades na área da microgeração, como forma de participação na expansão do acesso à energia nas zonas mais pobres e em áreas rurais.

Por outro lado, a necessidade de know-how neste setor continua a ser significativa, designadamente no âmbito dos estudos de impacto e sustentabilidade ambiental, gestão da biodiversidade e eficiência energética.

O facto de a África do Sul beneficiar da presença de escritórios de representação de diversas organizações multilaterais no país poderá contribuir para a aceleração do desenvolvimento de projetos na área das renováveis e assim contribuir para a transição energética necessária.

 

Os Produtos Farmacêuticos

A África do Sul é o maior mercado de produtos farmacêuticos da África Subsaariana, com um peso de cerca de 3,4 mil milhões de euros em 2020. As importações sul-africanas deste tipo de produto ascenderam a 2,2 mil milhões de euros nesse ano, sendo os três principais mercados de importação a Índia, a Alemanha e França.

O país prevê implementar até 2026 o Seguro Nacional de Saúde (NHI), de modo a garantir à totalidade da sua população o acesso a cuidados de saúde. Assim, perspetiva-se um aumento na procura por medicamentos, principalmente do tipo genérico sujeito a receita, assim como um aumento da produção local de produtos farmacêuticos genéricos – sabendo que o país não possui para já capacidade de produção de princípios ativos.

Os programas nacionais de luta contra a HIV/SIDA e contra a tuberculose continuarão a representar as maiores despesas públicas no setor da saúde, mas, a longo prazo, o enfoque deverá ser cada vez mais dado ao combate às doenças crónicas – diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão e tratamentos contra o cancro.

 

A Indústria Automóvel

Nas últimas décadas verificou-se uma expansão significativa deste setor, tendo a África do Sul conseguido posicionar-se na 20ª posição da lista de maiores fabricantes de automóveis do mundo em 2021. Estão presentes no país vários fabricantes, como a BMW, Ford, Isuzu, Mercedes-Benz, Nissan, Renault, Toyota e Volkswagen.

O governo sul-africano classificou a indústria automóvel enquanto setor prioritário, perspetivando o aumento até 2035 do fabrico de automóveis para 1,4 milhões de unidades por ano (foram produzidas 499 mil unidades em 2021).

Nas áreas das componentes e ferramentas especiais, incluindo os moldes, continua a verificar-se uma carência na oferta local face à dimensão da procura interna e, pese embora os mercados asiáticos tenham vindo a ganhar fatias de mercado face aos concorrentes ocidentais, sobra margem de manobra para as empresas que queiram apostar no mercado.

 

Casa Moda & Calçado

A existência de uma desenvolvida classe média-alta sul-africana continua a justificar a procura por produtos de design sofisticado e de qualidade, permitindo oportunidades nas categorias de produto de gama média/alta.

Enquanto os têxteis-lar, as louças e a cutelaria são escoados maioritariamente através de grandes superfícies, o vestuário e o calçado são predominantemente adquiridos em lojas de especialidade ou por via do e-commerce, setor em franca expansão no país.

 

Conclusão

Resumidamente e de uma forma geral, não há a mínima duvida de que a África do Sul é o país que se está a destacar do resto do continente africano em todas as áreas, o que o torna uma aposta clara para quem quer investir no continente.

Mas atenção, não estamos a falar de países de fora do continente, estamos a falar dos outros países africanos e, obviamente, dos PALOP pois está na hora de a África apostar na África se quiser ter um futuro concreto e passar a ser um dos players da economia mundial em vez de ser o parente pobre a ser explorado.

 

O que achas desta oportunidade de negócio? A África do Sul é claramente um país de futuro ou achas que haverá outro país em África com maior potencial? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

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Imagem: © 2015 Qtravel.pl

Authors

  • A AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), E. P. E., é uma entidade empresarial do Estado Português que visa o desenvolvimento e a execução de políticas estruturantes e de apoio à internacionalização da economia portuguesa.

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