O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que a África subsaariana enfrente um crescimento negativo à volta de 3% este ano e recupere já em 2021, ano em que deverá crescer 3,1%, mas o potencial de crescimento robusto a médio e longo mantém-se promissor.

As previsões do Fundo estão no relatório sobre as Perspetivas Económicas Regionais, no âmbito dos Encontros Anuais que decorreram novamente em formato virtual devido à pandemia da covid-19, que marcou todo o relatório e toda a conferência de imprensa na qual foi apresentado o documento.

O diretor do departamento africano do FMI previu que as medidas de distanciamento social vão continuar em boa parte da região pelo menos até 2022, dependendo da rapidez com que se desenvolva e distribua uma vacina, o que significa que o caminho para a recuperação económica será difícil e mais lento do que todos queriam.

O ‘difícil caminho para a recuperação’ é, aliás, o título do documento que contém as mais recentes previsões do Fundo para a região: as economias lusófonas estarão todas em recessão este ano, como grande parte do continente, aliás, mas todas vão recuperar em 2021, incluindo a Guiné Equatorial, que há quase uma década que regista crescimentos negativos.

“O crescimento africano em 2021 será menor do que o esperado no resto do mundo, o que reflete parcialmente o limitado espaço para políticas que sustentem uma expansão orçamental”, diz o FMI, deixando claro que não há capacidade financeira para apresentar planos de estímulo de milhões de milhões de dólares como foi feito nos Estados Unidos ou na União Europeia.

A receita do FMI: reabrir e reerguer as economias

Para o FMI, o mais importante, depois de conter a pandemia, é garantir o financiamento de que as economias precisam para recuperar desta queda sem precedentes e de que os Estados precisam para impulsionar a recuperação.

“A previsão macroeconómica depende de um aumento significativo do financiamento externo entre 2020 e 2023”, dizem os analistas do Fundo, alertando que vai ser preciso esperar até 2022 para ver um regresso aos níveis de produção e crescimento registados no ano passado.

Para já, há boas notícias do G20, que decidiu estender a moratória sobre os pagamentos da dívida oficial até junho, podendo alargar novamente para dezembro de 2021, dando margem de manobra para que os orçamentos não tenham de decidir entre combater a pandemia ou pagar aos credores.

“A África subsaariana está a lidar com uma crise económica e sanitária sem precedentes, que em apenas alguns meses colocou em causa os ganhos em desenvolvimento que os países alcançaram nos últimos anos”, pode ler-se no documento que sintetiza a visão do FMI sobre a região.

Para ultrapassar a crise, são precisos dois passos decisivos: primeiro, reabrir as economias, e depois encontrar financiamento para os investimentos necessários.

“Apesar dos custos económicos e sanitários elevados, os países estão, de forma cautelosa, a começar a reabrir as economias e estão à procura de políticas que garantam que o crescimento regressa”, diz o FMI, que já vê sinais de recuperação no segundo semestre devido aos preços mais altos das matérias-primas e à melhoria das condições financeiras.

O apoio externo, argumenta-se no relatório, será essencial para os países africanos recuperarem e atingirem o enorme potencial que todos lhes reconhecem: “Navegar tempos tão complexos não será fácil e vai implicar apoio externo contínuo; sem assistência significativa, muitos países vão debater-se para simplesmente manter a estabilidade macroeconomia e, ao mesmo tempo, atender às necessidades básicas da população”.

O financiamento é, assim, essencial, e o FMI não tem boas notícias neste capítulo: “Mesmo levando em consideração os atuais compromissos das instituições financeiras internacionais e dos credores bilaterais oficiais, a África subsaariana pode enfrentar um défice de financiamento de cerca de 290 mil milhões de dólares” até final do próximo ano.

A margem estreita para a recuperação

Os números, alertam os analistas, não são só um problema dos governos e dos economistas, porque com dificuldades de financiamento, os países podem “ser forçados a adotar ajustamentos orçamentais mais bruscos, o que pode traduzir-se numa recuperação mais lenta”, já para não falar das consequências da austeridade nas condições de vida de uma população que ainda luta para sair da pobreza.

A margem, explicou o diretor do departamento africano do FMI, é estreita: os países vão ter de adotar uma política orçamental e monetária que equilibre a necessidade de impulsionar a economia e, ao mesmo tempo, garantir a sustentabilidade da dívida, a estabilidade externa e a credibilidade a longo prazo.

Para além disso, as entidades de regulação e supervisão bancária vão ter de ajudar os bancos e as empresas, mas sem comprometer a capacidade do sistema financeiro para garantir o apoio ao crescimento económico.

E depois, lembra Abebe Aemro Selassie, tudo isto tem de ser feito tendo em conta a estabilidade social: “estes esforços também têm de ser equilibrados com a necessidade da manter a estabilidade social e, ao mesmo tempo, preparar o terreno para um crescimento sustentável e inclusivo”, ou, usando a expressão da diretora executiva do FMI, ‘build back better’.

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