África: O desafio da recuperação económica pós Covid e o papel das PME.

Se consideramos o incrível crescimento económico da Africa pré-Covid – terceira região com o crescimento mais rápido no mundo – e as sua potencialidades em termos de recursos humanos (50% da população com uma idade média de dezoito anos) para além dos recursos naturais conhecidos tais como  agricultura, pesca, turismo, minerais (apesar que estes últimos nem sempre são sinónimo de desenvolvimento aquietável  e sustentado), o ambicioso programa de unificação e solidariedade continental que se desenhou na agenda 2063 deveria estar sempre no topo das agendas das autoridades africanas: estados, regiões económicas e organismos continentais.

Em particular neste período de pandemia, onde a combinação de diversos fatores económicos tais como o declínio dos fluxos de IDE, a desaceleração dos investimentos, o aumento da fuga de capitais, o aperto dos mercados financeiros domésticos, juntamente com a redução dos fluxos de remessas, está a causar uma marcada inversão de tendência que enfraquece consideravelmente o crescimento económico.

A retoma das atividades económicas em Africa passa para muitos fatores, mas que devem necessariamente incluir a recuperação das atividades do sector privado e das PMEs.

Embora existam poucas e fiáveis estatísticas sobre as PMEs em Africa e que nem sempre são comparáveis porque as definições diferem entre países, sabe-se que em situação normal as PME africanas dominam os meios de produção e representam em média cerca de 90% do tecido empresarial, empregam cerca de dois terços da mão-de-obra e contribuem com cerca de 70% no PIB.

Portanto, qualquer programa de apoio à recuperação das atividades económicas e de desenvolvimento em geral deve necessariamente tomar em conta e incluir medidas para a consolidação de um ambiente de negócio favorável ao desenvolvimento do sector privado e das PMEs.

Neste contexto o papel das Câmaras do Comércio nacionais, das diferentes agências nacionais de comércio e investimento, e também da Câmara de Comércio e Indústria Pan-Africana deveriam revestir-se de um papel importante para aconselhar, entre outras, os operadores das PMEs a beneficiarem das oportunidades que oferece a Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA), das possibilidades de resgate e aceso aos financiamentos nacionais e internacionais, favorecer o desenvolvimento do empreendedorismo, permitindo assim às PMEs desempenhar o seu papel central na criação de empregos, na manutenção da estabilidade social e na recuperação do sistema produtivo.

È compreensível que o caminho é todo “a subir” e que não há fórmulas “mágicas” conhecidas para sair deste impasse, mas aposta em jogo é considerável e tem a ver com o desenvolvimento sustentável e ordenado do continente e precisa da contribuição coletiva.

Se a situação não é boa para o Continente, não é melhor para a Europa e o Ocidente em geral.

O economista norte-americano Nouriel Roubini, o mesmo que antes de outros viu a grande recessão de 2008, já falou de uma estagflação, uma mistura de estagnação e crescimento da inflação que aprisionou as economias dos anos setenta e exacerbou o conflito social.

O risco de que a recuperação econômica possa ser contida pelo aumento dos preços no mercado de energia é real e o cenário de uma recuperação económica pós-Covid pode mudar rapidamente. Em pior.

Vários são os sinais para que isso possa acontecer: a retoma da inflação, a interrupção de fornecimentos estratégicos (semicondutores por ex.), as tensões geopolíticas, a dívida pública crescente que o mundo acumulou para enfrentar a pandemia, a tentação dos bancos em favor de uma política monetária mais restritiva e outras.

E importante neste momento de crise evitar que egoísmos nacionais e regionais possam comprometer este esforço e estarmos conscientes que estamos todos no mesmo barco e que, por isso, devemos remar pela mesma direção. Todos, sem exceção.

A severidade da situação impõe esta tomada de consciência coletiva e também a necessidade implícita de sair dos discursos oficiais, manter-se o foco nas principais prioridades e adotar medidas concretas que ajudem a ultrapassar este momento critico.

Roma, aos 4 de Outubro de 2021

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