Mercados africanos: Queira explicar o que faz Aliança africana e quais são os países membros?

Florentino Nanque Presidente da Aliança Africana do caju (PAAC): Aliança Africana do Caju https://www.africancashewalliance.com/en

 é uma organização internacional que congrega vários países do mundo, mas não só países africanos, mas sim, países produtores da castanha do caju, assim países consumidores e países também que têm a tecnologia nessa área. Portanto é uma plataforma de conhecimento e experiência de oportunidades e foi criada em Bissau com o apoio dos nossos parceiros nomeadamente, a Organização Não Governamental Sueca, SWSSAID e outras. A nível dos países africanos, são todos aqueles que produzem a castanha do caju, exemplo da África do Sul, Benim, Burquina Faso, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, o Mali, a Tanzânia etc, mas não podemos esquecer dos países consumidores. Um dos objetivos da Aliança Africana do caju,  é facilitar as parcerias e procurar meios e recursos através das grandes conferências anuais que realizamos onde são convidados os potenciais financiadores e também a oportunidade de divulgar aquilo que se descobriu ao longo do ano para o desenvolvimento do sector do caju.

Mercados Africanos: Quais são os maiores produtores do caju africano?

Florentino Nanque PAAC: Em primeiro lugar podemos encontrar a Costa do Marfim, a Tanzânia, a Guiné-Bissau, o Benim. Moçambique era o maior produtor do caju na África, mas perdeu esse estatuto porque houve pragas, por isso é que eu defendo que, a Aliança tem uma importância enorme para o desenvolvimento do sector, porque congrega especialistas, investigadores e coloca este conhecimento a um “custo zero”. Por exemplo, um participante de um dos países produtores da castanha do caju, ao participar na conferência anual, terá a oportunidade de levar para o seu país, os resultados dos estudos sobre a cadeia, incluindo os fatores negativos e positivos para o desenvolvimento do sector do caju. Os participantes pagam apenas mil Euros e em termos de resultados, a pessoa leva tecnologias para o desenvolvimento do sector no seu respetivo país. Se um ou outro país soubesse aproveitar aquilo que se conseguiu nesta plataforma, vai imprimir uma dinâmica extraordinária em termos de desenvolvimento da cadeia do caju.

Mercados Africanos: Até que ponto foi afetada a indústria africana do caju pela pandemia?

Florentino Nanque PAAC: Os impactos da pandemia arrasaram por completo a indústria do caju não só em África, porque originou o fecho de muitas fábricas que colocou no desemprego várias pessoas e famílias que ficaram sem renda. Na África a situação ainda é pior. A nossa organização incentiva os estados produtores da castanha do caju,  em transformar pelo menos 50% daquilo que a África oferece, porque é o maior produtor do mundo. Se somarmos a produção de todos os países africanos, só a África Ocidental, produz anualmente mais de dois  milhões de toneladas da castanha do caju. A título de exemplo, só a Costa do Marfim, neste momento, está com uma produção de oitocentas e cinquenta mil toneladas e a procura de um milhão de toneladas de produção da castanha do caju. A projeção para 2021/2022 vai ultrapassar um milhão de toneladas.

No caso concreto da Guiné-Bissau é de lamentar. Não se consegue ter estatísticas fiáveis e iguais em todas as instituições do estado que lidam com a problemática do caju. Por isso, a nossa organização trabalha na sensibilização dos estados membros, no sentido de assumirem o “volante” do sector e não os privados.

Mercados Africanos: Quais são os planos para a saída da crise?

Florentino Nanque PAAC: Como eu disse há pouco, os estados é que devem traçar o plano político, econômico e financeiro para o sector, e essa responsabilidade não deve ser atribuída aos privados. O estado é quem deve “ditar a regra do jogo” para disciplinar e tornar mais rentável e competitivo o sector do caju. Nós, Aliança, temos assento no Conselho de Ministros e no conselho internacional consultivo do caju que inclui a maior parte dos países produtores do caju. A Guiné-Bissau assinou a convenção, e estava a ser aplicada, através de um cronograma de atividades, mas a pandemia da COVID-19, impediu-nos de dar continuidade ao nosso trabalho. Estamos a empreender esforços para com vista a mitigar o impacto da COVID-19. Prova disso, já enviei cartas a todos os Ministros do sector do caju, junto dos estados membros, para sensibilizá-los no sentido de fazer um plano estratégico ambicioso para ver se conseguimos contornar as consequências da pandemia de COVID-19. Mas este plano ambicioso, deve incluir todos os mecanismos de fiscalização, controle e seguimento para permitir que não haja desvios do procedimento a nível dos países membros. Os recursos mobilizados devem ser aplicados no sector do caju, porque a economia de muitos países africanos e não só, depende deste produto e há toda uma necessidade de pensar na industrialização e tem uma vantagem enorme.

Aliança Africana do caju, funciona como conselheiro dos estados africanos no sector do caju. Nós aconselhamos se possível que os estados membro apoiem os intervenientes no sector do caju e serem mais sensíveis na aplicação das taxas.

Mercados Africanos: Muito do caju Africano não é transformado ou seja é exportado sem valor acrescentado. Porquê e como mudar essa realidade?

Florentino Nanque PAAC: Porque os nossos governantes ainda têm défice em termos da sensibilidade.  Embora com muitas dificuldades conseguimos incutir na mente dos Asiáticos que não devem pensar que, se a África um dia, poder transformar a castanha de caju não vais lhe vender, porque a África está produzir muito e se conseguir chegar um rendimento por hectares de oitocentas ou mil toneladas, é impensável que a África vai transformar 100% da sua produção. Os Asiáticos têm problemas com o clima, nós não temos. Estão a tentar encontrar auto-suficiência para as suas indústrias. Só a India, que é  o maior produtor ainda mundial, transforma às vezes na sua safra, somente novecentas toneladas e precisa de mil toneladas  para fazer funcionar as suas indústrias e vem para África. A África como ainda precisa de setecentas a oitocentas mil toneladas e está produzir mais, quase dois milhões de toneladas da castanha do caju, vende mais de um milhão de toneladas e pode transformar 50% e em termos monetários, são milhões de dólares americanos.

Esta dinâmica, foi graças a Aliança Africana do caju e tem contribuído na nossa dieta alimentar. Para além da transferência da tecnologia, nós estamos a tentar sensibilizar e promover o consumo. Os países que produzem a castanha do caju devem consumir amêndoa, o óleo alimentar, nozes do caju, bolo, bolachas, bife do caju, pizzas, utilizar a casca para outros fins. A India faz isso, só vende 30% da sua produção, ou seja, a amêndoa já transformada. Ao contrário da África que não consome o produto. Na nossa estratégia está bem patente a produção, a transformação, a exportação e o consumo interno.

Mercados Africanos: O caju africano é vendido sem ser transformado que depois o transformam e vendem com lucros muito alto. O que faz a sua organização para reverter a situação?

Florentino Nanque PAAC: Para reverter esta situação na nossa estratégia, celebramos parcerias com os países asiáticos que são tradicionais, que conhecem e trabalham no sector do caju, mas também os países das Américas caso do Brasil. Assinamos algumas convenções que têm como objeto, a transferência de tecnologias, de conhecimento e experiência. A nossa organização sendo uma plataforma, faz ponte entre esses países e os países africanos.

Mercados Africanos: O que se necessita fazer para melhorar a cadeia de valor de produção do caju em África?

Florentino Nanque PAAC: muita coisa deve ser feita, iniciamos pela produção por se tratar de uma cadeia. Nós não podemos desenvolver o sector do caju sem pensar na cadeia, porque basta um dos autores descontente na cadeia, todo o esforço vai para água baixa. Devemos investir na formação e capacitação dos agricultores africanos para deixarem de ter florestas do caju e passarem a ter plantações do caju com um ordenamento organizado que obedece regras e princípios de traçabilidade, para permitir que o caju esteja a vontade e que não tenha concorrência na sua alimentação, com vista a ter um produto de qualidade. Quem consumir amêndoa da Guiné-Bissau na Alemanha e tiver uma problema de saúde pode pegar no rótulo e saber de onde aquela amêndoa. E no país devemos ser capazes de saber do que zona do país foi produzida aquela amêndoa e dentro daquela zona localizar o produtor. O produtor por sua vez, deve saber em que parte do terreno que ele fez a colheita daquele produto e somos obrigados a analisar o solo para evitar mais danos. Embora durante o nosso exercício como transformadores nunca tivemos esse problema, porque somos muito exigentes.

Mercados Africanos: Como melhorar o acesso dos produtores africanos ao financiamento para processar, mecanizar e tornarem-se mais competitivos no mercado mundial?

Florentino Nanque PAAC: Um dos objetivos da Aliança Africana do caju é tornar competitivo o sector do caju africano com enfoque na produção. O produtor africano deve estar organizado em grupo, cooperativas ou mesmo individualmente. O produtor deve ter a capacidade e competência para conhecer bem o produto, selecioná-lo, conservá-lo e até a venda. E se estiverem reunidos em grupos ou cooperativas ou associações são capazes de ter potenciais financiadores que podem estar ao lado deles para os apoiarem. Também estamos a sensibilizar os grandes produtores a apostarem na transformação industrial como acontece nos outros países, caso dos Estados Unidos da América que é um exemplo típico em que os agricultores são donos das fábricas. Isso dá uma força extraordinária ao sector em termos de eficiência e eficácia e sem grandes problemas com a rutura do “stock”.

Mercados Africanos: Como podem os governos africanos apoiar o desenvolvimento da indústria do caju?

Florentino Nanque PAAC: Os governos africanos devem assumir as suas responsabilidades. Nós não podemos continuar a olhar para os nossos jovens a irem pelo mediterrâneo, comprando a morte em troca de melhores condições de vida, e temos as condições para lhes oferecer. Agora esses jovens, estão a transformar numa força motora para o desenvolvimento dos outros países e com altos riscos, muitos saiam e não voltam. A produção deve ser melhorada, a armazenagem deve ser melhorada, via de acesso deve ser melhorado, todo esse conjunto de elementos devem ser melhorado pelos estados membros da Aliança Africana do caju apoiados pelos privados através dos seus impostos. E neste longo processo da cadeia de valores, podemos criar postos de trabalho para os nossos jovens. Os governos Africanos devem repensar as suas estratégias de financiamento. Quando injeta dinheiro faz seguimento, fiscalização e apoia com a assistência técnica e os resultados são imediatos, porque é uma experiência. Alguns países já estão a implementar essa experiência, caso do Benin, Costa do Marfim, por isso atingiu oitocentas e a procura de um milhão de toneladas da produção da castanha do caju por ano. A Guiné-Bissau, a qualidade está a reduzir, porque deixamos de ter plantações do caju e passamos a ter as florestas do caju. Quando não se alimenta uma mãe, o bebé tem a tendência de estar desnutrido. O mesmo também acontece com as plantas. As amêndoas são muito pequenas. Na nossa qualificação de amêndoas a Guiné-Bissau, tinha uma categoria mais saliente em termos da qualidade e espessura, 180, 2010, 240, aquela que os Americanos gostam mais e custam mais. Atualmente, algumas amêndoas da Guiné-Bissau, são vendidas qualquer coisa como 0,5 dólar.

Mercados Africanos: Na Guiné-Bissau havia 15 unidade de transformação da castanha de caju. Atualmente o país conta apenas com três unidades. E isto porquê?

Florentino Nanque PAAC: É uma pena, é lamentável, mas o país tem uma capacidade instalada de mais de trinta mil toneladas da amêndoa. Se pegar naquele 30 mil toneladas multiplicado por 4 alguém terá a ideia de quantas toneladas da castanha bruta que poderia ser transformada anualmente na Guiné-Bissau. Para a recuperação destas unidades, primeiro precisamos de estabilidade política e governativa. A mudança constante dos interlocutores não ajuda, porque há sempre necessidade de fazer o outro conhecer os dossiers. Não quer dizer que,  não há países com convulsões políticas, mas tem uma cerca estabilidade administrativa, política e governativa. O governo mudo, mas há pedras que não mudam. Essas pedras, são pulmões administrativos de qualquer país. Em 2014 a nossa fábrica tinha conseguido um financiamento de 100% do Banco Mundial. Entre 2015/2016, quando estivemos a preparar para iniciar, houve a queda do governo e consequente anúncio político do preço base da castanha do caju ao produtor no valor de 1.000 francos CfA e sem respeitar as estruturas do custo e somos obrigados a desistir. Nada se faz sem cálculos. A cadeia tem que funcionar para que todos nós saímos a ganhar. Por isso, nos nossos relatórios e conferências chamamos sempre atenção aos estados membros da Aliança Africana do caju,  para a necessidade de haver a estabilidade política e governativa e o diálogo franco e aberto entre os intervenientes no sector. É pena, um país que exportou este ano no porto de Bissau, mais de duzentas mil toneladas e só transforma 1%. Eu gosto de citar sempre Costa do Marfim, antes da pandemia, no ano passado, conseguiu transformar setenta mil toneladas da castanha do caju. Embora na sua produção anual,  é uma coisinha mas pelo menos deu um passo. A Costa do Marfim, agora já tem uma escola e institutos cuja parte do currículo,  é dedicada ao sector do caju, que é para as pessoas conhecerem este produto, como planta-lo e como tirar maior proveito do mesmo.

A Guiné-Bissau também devia seguir este caminho.

Mercados Africanos: Como pode a sua organização apoiar na recuperação daquelas unidades?

Florentino Nanque PAAC : Quando houver estabilidade política e governativa e com uma política clara para o sector, vamos dar passos e podemos contribuir na recuperação da maioria de fábricas. A dinâmica da nossa atividade, que ainda continua a ser uma miragem,  depende muito da conjuntura e do ambiente do negócio. Um país, que se procura afirmar internacionalmente e com pouco fluxo dos parceiros, é difícil avançar com as datas e as possibilidades de poder ou não apoiar. Mas esta preocupação está na agenda da minha organização, porque o futuro do caju é a industrialização.

A Guiné-Bissau tem uma população jovem cerca de 60%.

Mercados Africanos: Como é que a Aliança Africana pode apoiar os jovens a encontrarem financiamentos e garantirem emprego?

Florentino Nanque PAAC: Eu sou uma das vozes críticas, desta triste e dura realidade que às vezes incutimos na mente dos nossos jovens em como a Europa é um “eldorado”, e quando na verdade, podíamos garantir-lhes melhores condições de vida, apostando na transformação da nossa castanha do caju com qualidade e postar na formação técnico profissional estaremos em condições de criar postos de emprego. A nossa preocupação, de fato, é oferecer esperança a esses jovens. Mas para que seja uma realidade efetiva, é preciso que haja paz e estabilidade política e governativa no país. Condição indispensável para que os nossos jovens voltem a sonhar. É preciso unirmos os esforços e pôr a cabeça a funcionar, elaborar estratégias que reflitam a nossa realidade e conseguir dar emprego aos nossos jovens que representam mais de 60%, na sua maioria mulheres.

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