“Educação financeira em Cabo Verde deve ser assumida pelo Estado”

O cabo-verdiano ainda é avesso a poupança, assim como em investir em ativos. Por isso, apesar das várias iniciativas, instituições e empresas que trabalham a questão, o economista e presidente da Associação para a Promoção da Educação Financeira (Profin), António Baptista, considera que a educação financeira é “algo imprescindível”, que está a ser cada vez mais falada, mas entende que deveria ser assumida pelo Estado, como uma disciplina transversal nas escolas desde o primeiro ano até à universidade.

Quando surgiu a Associação para a Promoção da Educação Financeira (Profin) e que trabalho tem realizado até agora?

A Associação para a Promoção da Educação Financeira (Profin) surgiu há cerca de três anos, com  o objetivo de promover a educação financeira em Cabo Verde, para famílias, empresas e jovens. Atualmente nós estamos muito mais direcionados para crianças e jovens, também com alguns temas para as famílias. E junto com outros parceiros nós temos trabalhado a educação financeira corporativa. E como o próprio nome diz, a Profin é uma associação sem fins lucrativos. E temos trabalhado em parceria com várias outras entidades. Nos anos anteriores, com parceria com a Câmara Municipal de Santa Cruz, em Santiago, realizamos atividades que beneficiaram praticamente todas as crianças no ensino básico na comunidade. A Profin surgiu ao constatar que a educação financeira é um assunto ainda muito pouco divulgado em Cabo Verde. As famílias dão pouco opção à oportunidade de aprender sobre poupança, sobre como utilizar melhor o nosso dinheiro, como decidir melhor com os nossos recursos financeiros, que cada dia são mais escassos e mais caros. Constatámos isso e também há um estudo do Banco de Cabo Verde (BCV) que foi feito em 2015, que mostra que o cabo-verdiano têm muitas limitações ainda, não conhecem muito detalhadamente o dinheiro e essa falta de conhecimento tem traduzido numa grande ignorância para melhorar a sua situação financeira.

As pessoas não têm conseguido poupar por falta de conhecimento ou porque o dinheiro é pouco?

É isso que é o grande problema, porque as pessoas pensam que a poupança tem a ver com a quantidade de dinheiro, mas isso é ignorância porque poupança não tem nada a ver com a quantidade de dinheiro, ela é uma atitude, um comprometimento que temos que fazer com parte de todo o rendimento que recebemos, independentemente da quantidade. Isso é o que se ensina lá fora, mas em Cabo Verde não se fala de poupança e nós tratamos a poupança como sobra, mas em outros países a poupança não é sobra, ela é um gasto, é um gasto importante que a família tem de fazer, é um gasto importante com você mesmo. Não faz sentido deixar para investir no seu futuro, no seu sonho, com sobras. Mas sim é o primeiro gasto que temos que fazer. Esse é o primeiro truque que temos que fazer e aqui em Cabo Verde as pessoas não sabem e costumam dar desculpas porque ganham pouco, porque não têm dinheiro, etc, etc. E não faz sentido. Podemos poupar uma parte de todo o dinheiro que recebemos. Em outros países a poupança começa com 10% de tudo, independentemente do montante recebido. Muitas pessoas não têm feito a poupança de forma correta e por isso muitos não conseguem melhorar a sua situação financeira, e ficam presos no endividamento, numa condição de pobreza.

Nestes três anos, já tem notado alguma mudança de comportamento dos cabo-verdianos?

Uma coisa boa é que a educação financeira tem-se tornado algo mais vulgarizado e estamos muito satisfeitos com isso. Antes não se falava da educação financeira, mas através da Profin e de um esforço muito grande e colaboração de vários parceiros, hoje já se fala da educação financeira, nas instituições, estão a surgir várias iniciativas, várias pessoas foram formadas. E acredito que isso vai se transformar em mudança de atitude.

Destacou no início que têm feito muito trabalho com crianças. É por aí que se tem que começar a mudar comportamentos?

Temos dado prioridade agora a crianças e estudantes, que são pessoas que ainda estão mais abertas as mudanças de comportamentos. Pessoas adultas já têm um hábito enraizado, uma rotina financeira que é muito difícil de mudar. E para elas nós damos palestras, sensibilização e acesso a outros materiais. Já com crianças nós temos trabalhado nas escolas, sempre aproveitamos para dar dicas sobre ‘mesada’, sobre ‘semanada’, que são formas de educação financeira, esclarecer aos pais como fazer isso de forma correta. Muitas crianças chegam a idade adulta, infelizmente, ignorantes sobre educação financeira, tomando decisões precipitadas, não têm poupanças, gastam de forma pouco racional, muitas vezes seguindo moda, alguma ‘bazofiaria’, do que por necessidade.

Em que áreas, setores de atividade é mais difícil poupar?

Ainda não fizemos uma investigação para saber isso. O estudo do BCV foi genérico e não diferencia essas pessoas, mas reparamos que todo o mundo tem dificuldade em poupar. Não existe uma classe poupadora. A educação financeira não é só poupança, nos ensina a ganhar dinheiro, a gastar, a poupar, a reinvestir, a doar, e todos nós temos deficiências em alguns desses domínios. Nós vemos muitas pessoas na economia informal que sabem ganhar dinheiro, mas muito pouco sabe gastar. Não sabemos estabelecer prioridades, planos. A maioria deles até pode ter uma poupança, uma reserva financeira, mas o segredo da prosperidade não está em simplesmente fazer a reserva, porque a reserva não é um fim em si mesmo, é um meio que deveria reinvestir e aumentar o seu negócio. Nós constatamos que a maior desses negócios informais continua do mesmo tamanho, os anos passam e não cresçam, não geram uma prosperidade. Tem uma poupança, mas a questão é como e onde utilizar o dinheiro que foi poupado. Muitas vezes as pessoas não sabem diferenciar ativo patrimonial de passivo patrimonial e é isso que faz toda a diferença para esses micro empreendedores. Acabam por gastar dinheiro em passivos, que os tornam mais pobres, em vez de gastar em ativos, que os tornam mais próspero em termos de capacidade de aumentar receitas, aumentar a sua resiliência. Nós temos ainda um défice enorme em termos de educação financeira.

E com isso que acontece?

Esses indivíduos constituem famílias, empresas e se as famílias e as empresas não estão saudáveis, o que podemos esperar da economia? São pessoas que dependem somente do seu salário e sabemos que isso não é prudente. Temos que diversificar as nossas fontes de rendimento. E a educação financeira trabalha com tudo isso.

A pandemia pode ser uma oportunidade, não só para vocês como associação, e para a população em geral começar a poupar mais e ter mais educação financeira?

Acho que devia ser, mas não consigo ver mudanças de comportamento em relação a isso. A consciência, a vontade e o interesse existem, mas acho que faltam informações. Nesta pandemia, muitas pessoas estão a mexer nas suas poupanças, o que eu acho correto, porque estamos num momento muito atípico para falar de poupança. Agora não é momento de falar de poupança, por causa da economia, que está muito mal. Estamos num momento de recessão e isso exige gastos. Estamos num momento de gastar parte das nossas poupanças e aumentar o consumo porque é isso que vai retomar a economia. Agora estaríamos num momento de ‘despoupança’.

Qual seria o papel do Estado?

A questão da educação financeira deveria ser assumida pelo Estado. Nem é assunto do Governo, é assunto do Estado, é uma coisa para estabilidade futura do país. Assim como foi feito praticamente em todos os países, deveria ser uma disciplina transversal nas escolas desde o primeiro ano até a universidade. A educação financeira é algo hoje imprescindível. As nossas ações são muito paliativas, informativas, mas isso deveria ser feito de forma sistemática e somente o Estado teria condições de fazer isso. Deveríamos ter consciência de que nunca mais deveríamos passar por essa situação de famílias sem poupança, um país sem empreendimentos e sem ativos. Grande parte das famílias colocaram dinheiro em passivos, que não trazem prosperidade sustentável aqui no país. E nós não produzimos praticamente nada desses passivos que as famílias colocam dinheiro neles.

 

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