O assassinato de um homem negro no estacionamento de um supermercado da rede Carrefour na cidade de Porto Alegre, capital do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, motivou protestos e reacendeu o debate sobre o racismo estrutural no país.

Na quinta-feira (19/11) João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, foi fazer compras e acabou espancado e morto por dois seguranças.

Testemunhas contaram que o crime ocorreu após uma briga da vítima com funcionários do supermercado, que levaram João Alberto para fora da loja e o espancaram até a morte.

Os dois seguranças acabaram presos e o caso está a ser investigado pelas autoridades da polícia que ainda não determinou se a vítima foi alvo de racismo.

Vídeos gravados por testemunhas na hora do crime mostram a vítima sendo atingida por socos e imobilizada com violência. O homem negro também pede ajuda. Alguns vídeos mostram ele já desacordado e a tentativa de socorristas de salvá-lo.

Estas imagens começaram a circular nas redes sociais na noite do crime, provocando uma onda de mobilizações contra o racismo que começaram na sexta-feira e se estenderam até o domingo.

O homicídio gerou uma indignação mais elevada porque ocorreu na véspera do Dia da Consciência Negra, feriado instituído no país sul-americano para valorizar a cultura negra, em 20 de novembro, data escolhida em homenagem a Zumbi de Palmares, último dos líderes do Quilombo dos Palmares, uma comunidade fundada e governada por escravos fugitivos no nordeste do Brasil no século 17.

O  presidente global do Carrefour, rede de supermercados francesa dona da loja onde o crime aconteceu, Alexandre Bompard, divulgou uma mensagens no Twitter  informando que pediu que a empresa no Brasil faça “uma revisão completa das ações de treinamento dos colaboradores e de terceiros, no que diz respeito à segurança, respeito à diversidade e dos valores de respeito e repúdio à intolerância”.

O governador do estado do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, usou as redes sociais para defender uma investigação rigorosa dos factos.

O presidente da Câmara dos Deputados (câmara baixa do Congresso brasileiro), Rodrigo Maia, cobrou “o peso da lei” para punir quem promove o ódio e o racismo.

“Em nome da Câmara dos Deputados, envio meus sentimentos à família e aos amigos do João Alberto Silveira Freitas. A cultura do ódio e do racismo deve ser combatida na origem, e todo peso da lei deve ser usado para punir quem promove o ódio e o racismo”, disse Maia.

O presidente do Senado (câmara alta do Congresso), Davi Alcolumbre, frisou em mensagem nas redes sociais que “o assassinato brutal de João Alberto Freitas, espancado até a morte por seguranças de um supermercado, em Porto Alegre, estarrece e escancara a necessidade de lutar contra o terrível racismo estrutural que corrói nossa sociedade”.

Já o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, negou que o racismo seja um problema no país e publicou uma mensagem em suas redes sociais com críticas aos movimentos sociais que convocaram os protestos realizados após o crime. O governante disse que grupos “instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos”.

O vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, deu uma declaração ainda mais polémica ao afirmar numa breve conferência de imprensa que não existe racismo no país.

“Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui”, disse Mourão em Brasília, na sexta-feira (20).

A avaliação de Bolsonaro e Mourão contraria números coletados pelo próprio Governo brasileiro, que colocam os afrodescendentes no topo dos levantamentos de vítimas de crimes violentos e pobreza.

O último Atlas da Violência, levantamento elaborado a partir de uma parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Instituto de Económica Aplicada (Ipea) que coleta e analisa números produzidos pelo Governo brasileiro, indicou que em 2018 os negros representaram 75,7% das vítimas de todos os homicídios praticados no país.

Isto significa que três em cada quatro pessoas assassinadas no Brasil eram negras.

O mesmo levantamento constatou entre 2008 e 2018 a taxa de homicídios de negros no país cresceu de 34 para 37,8 para cada 100 mil habitantes, o que representou uma alta de 11,5%.

Já os homicídios contra os não negros (brancos, asiáticos  e indígenas) no mesmo período recuaram 12,9% no Brasil, passando de uma taxa de 15,9 para 13,9 mortes para cada 100 mil habitantes.

Os negros brasileiros têm maiores taxas de desemprego e representam a maior percentagem da população dentro da força de trabalho precarizada.

A taxa de desemprego registada no mercado de trabalho do Brasil em 2019 foi de 9,3% os brancos e de 13,6% para os negros de acordo com o estudo “Síntese de Indicadores Sociais”, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O mesmo levantamento apontou que os afrodescendentes moram com maior frequência em domicílios com algum tipo de inadequação.

Segundo o IBGE, 45,2 milhões de pessoas do total de 210 milhões de habitantes do Brasil residiam em 14,2 milhões de domicílios com pelo menos um problema grave de infraestrutura: ausência de banheiro de uso exclusivo, paredes externas com materiais não duráveis, adensamento excessivo de moradores, peso excessivo com pagamento de aluguel no orçamento das famílias e ausência de documento de propriedade.

Desta população, 13,5 milhões se autodeclaravam de cor branca e 31,3 milhões de cor ou raça negra ou parda.

“Não é possível elencar um único indicador como mais importante em termos de desigualdade. Percebemos uma desigualdade estrutural [entre brancos e negros no Brasil] que ocorre ao longo dos anos da série em vários indicadores, e não apenas em 2019”, concluiu João Hallak, responsável pela pesquisa do IBGE.

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