Bélgica devolve restos mortais de Patrice Lumumba, 60 anos depois.

Patrice Lumumba foi assassinado há mais de 60 anos, por separatistas congoleses, mas até hoje permanece a dúvida se o assassinato não terá tido a participação do Governo belga e do envolvimento dos EUA.

A repatriação dos restos mortais do primeiro líder democraticamente eleito do Congo, Patrice Lumumba, ocorre no momento em que a Bélgica procura confrontar o seu passado colonial sombrio.

 

O repatriamento dos restos mortais

“Foram mais de 60 anos de dor”.

Foi assim que Juliana Lumumba, a filha de Patrice Lumumba, ex-primeiro-ministro do Congo, descreveu a vida da sua família que espera há décadas que a Bélgica devolva os restos mortais conhecidos do seu pai – um dente e ossos de um dedo.

“Como família, temos que seguir em frente e só podemos fazê-lo quando enterrarmos os restos mortais de nosso pai em paz”.

“Até agora, o processo de entrega foi muito burocrático e, juntando a pandemia, ainda estamos à espera do dente dele”.

“Espero que este ano a Bélgica entregue o que é nosso por direito”.

Afirmou Juliana Lumumba.

A decisão de entregar os restos mortais, foi tomada por um tribunal Bélga, após anos de lobby efectuados pela família de Lumumba e abriu caminho para que, os restos mortais conhecidos, do herói da independência congolesa, Patrice Lumumba sejam devolvidos ao seu país natal.

Essa decisão encerra um capítulo na história congolesa e é visto como um gesto profundamente simbólico para o povo congolês.

Lumumba tornou-se primeiro primeiro-ministro do Congo recém-independente em 1960, quando tinha apenas 34 anos, depois de defender o fim do domínio colonial. Mas após um golpe militar e a ascensão do ditador Mobutu Sese Seko, Lumumba foi preso e encarcerado.

Após a sua prisão, foi assassinado por separatistas em Janeiro de 1961. Diz-se que o corpo de Lumumba foi desmembrado e dissolvido com ácido, em uma aparente tentativa de impedir que qualquer túmulo se tornasse um local de peregrinação.

A 20 de Junho de 2022, a Bélgica apresentará oficialmente o dente de Patrice Lumumba aos seus familiares em uma cerimônia oficial em Bruxelas.

Embora o dente seja apenas uma parte do corpo, também simboliza um período sombrio na história da Bélgica e do Congo, a sua antiga colónia, um período que a Bélgica ainda está a tentar desfazer e aceitar, segundo Juliana Lumumba.

 

Sem prova de DNA, mas com certezas

O dente teria sido arrancado do seu cadáver, logo após ter sido assassinado e levado do Congo para a Bélgica por um homem cuja família aparentemente o manteve por mais de meio século. O homem era um polícia belga que ajudou a eliminar o corpo de Lumumba.

Eric Van Duyse, porta-voz da promotoria federal belga, disse que nenhum teste de DNA poderia ser realizado no dente.

“Se tal teste tivesse sido feito, teria destruído o próprio dente”.

“No entanto, a autoridade judicial tem a certeza de que pertencia a Lumumba por causa da forma como o dente foi obtido”.

Afirmou Van Duyse sem dar mais detalhes.

Juliana Lumumba, a filha do herói da independência, disse que a família ficou feliz com o resultado.

“Esta é uma grande vitória”.

“Finalmente, 60 anos após sua morte, os restos mortais do meu pai que morreu pelo seu país, pela sua independência e pela dignidade do seu povo, retornarão à terra dos seus ancestrais”.

 

Lumumba era considerado uma ameaça

Patrice Lumumba subiu ao poder para se tornar o primeiro primeiro-ministro democraticamente eleito do Congo em 1960.

“Lembro-me de ir ao escritório com ele quando tinha 5 anos e vê-lo trabalhar”.

“Ele foi um homem que personificou a democracia durante o colonialismo”.

Lembra Juliana com carinho.

Mas o mandato de Lumumba durou menos de um ano depois que o seu rival, o presidente congolês Joseph Kasa-Vubu, o tentou demitir. No meio o caos, aconteceu um golpe militar liderado pelo coronel Joseph Mobutu que derrubou o primeiro-ministro.

Em Kinshasa, foram vistos soldados a guardar Patrice Lumumba e Joseph Okito o vice-presidente do Parlamento. Apesar de preso, Lumumba continuou a insistir nos valores democráticos e, supostamente comunistas, o que o tornou uma ameaça para a Bélgica e para os Estados Unidos da América.

“Nessa época estava-se no auge da Guerra Fria, por isso eles temiam que Lumumba ganhasse o apoio da União Soviética”.

“O governo belga também considerou os valores de Lumumba, como sendo uma ameaça aos seus interesses fundamentais no Congo”.

Disse o escritor belga Ludo De Witte que escreveu o livro “O Assassinato de Lumumba“.

Esse medo, levou ao assassinato de Lumumba, em janeiro de 1961. Ele foi morto a tiros por soldados pertencentes ao estado separatista congolês do Katanga, enquanto oficiais belgas observavam, sem intervir.

“Uma vez executado, um polícia belga chamado Gerard Soete e o seu irmão, encarregaram-se de destruir o corpo, para esconder todas as evidências do seu assassinato”.

“Eles cortaram o seu corpo em pedaços e dissolveram os restos em um barril de ácido sulfúrico”.

“Mas Soete, guardou alguns restos do corpo e decidiu levá-los para a Bélgica, como uma espécie de troféu de caça”.

“Isso só mostra o que as elites podem fazer, quando consideram alguém uma ameaça”.

Disse Ludo De Witte.

 

O Impacto da sua morte

Depois que Ludo De Witte publicou o seu livro, analisando o assassinato de Lumumba, Soete apresentou-se publicamente e confirmou o seu papel no encobrimento da morte de Lumumba.

Um inquérito parlamentar belga lançado em 2001, confirmou de que o país era moralmente responsável pela morte de Lumumba. Segundo o inquérito:

“A execução ocorreu na presença de ministros do Katanga e foi realizada por representantes oficiais do Katanga”.

“Estiveram presentes no local, um comissário de polícia e três oficiais belgas sob a autoridade, liderança e supervisão das autoridades do Katanga”.

O inquérito também acrescentou que o governo belga não protestou contra a execução ilegal de Lumumba, nem expressou arrependimento ou desaprovação em relação a ela.

Após o inquérito, o então ministro das Relações Exteriores da Bélgica, Louis Michel, transmitiu os seus “sinceros arrependimentos” pelo papel do seu país. Mas o país continuou a guardar o dente de Lumumba, que se encontrava na procuradoria belga em Bruxelas.

Somente em 2020, é que o rei Philippe da Bélgica respondeu a uma carta de Juliana Lumumba e concordou em devolver os restos mortais de seu pai.

“Recolher os restos mortais é importante para nós como família”.

“Mas tem um impacto maior no povo da RDC porque a sua morte foi o assassinato da democracia no país”.

“Ele foi morto pelos seus valores e ainda permanece na mente do povo”.

Afirmou Juliana Lumumba.

A diáspora congolesa na Bélgica compartilha sentimentos semelhantes, de acordo com Anne Wetsi Mpoma, historiadora de arte e curadora independente:

“Patrice Lumumba lutou pela liberdade do seu país e a comunidade congolesa nunca se recuperou dessa perda”.

“Além disso, considerando a crise no país hoje, ele é realmente um símbolo da paz que as pessoas admiram”.

“E neste momento, em que a maioria dos líderes dos países africanos, hoje escolhem a si mesmos em vez de escolherem o seu povo, isso ainda é mais importante”.

 

Chega, devolver o dente?

Em 2018, a pedido dos congoleses e de outras comunidades africanas na Bélgica, a Câmara Municipal de Bruxelas anunciou que uma praça pública teria o nome de Patrice Lumumba.

A praça em questão fica no meio de uma movimentada rua comercial de Bruxelas e tornou-se um espaço onde as pessoas se reúnem para protestar contra o racismo, segundo Aliou Balde, ativista da Guiné:

“Para muitos africanos, Patrice Lumumba é o nosso impulso para combater o racismo, a violação policial e pedir a descolonização”.

“Assim como um carro precisa de gasolina para funcionar, Patrice Lumumba é nossa fonte de energia para lutar pelos nossos direitos”.

Para Ludo De Witte, as praças públicas e o retorno das relíquias não significam nada pois o governo belga ainda é indiferente à sua história sombria. Segundo ele:

“O país ainda não assumiu a total responsabilidade pelo assassinato”. Sim, houve desculpas e arrependimentos, mas é tudo passivo”.

“Mais importante, a morte de Lumumba levou a décadas de ditadura e convulsões civis que são claramente responsáveis pelo estado do país hoje”.

“Então, acho que temos que pedir desculpas, mas também temos que dar mais apoio político, financeiro e simbólico para esclarecer esse período sombrio de maneira eficaz”.

O historiador de arte Mpoma compartilha dessa visão e disse que a Bélgica e a Europa também precisam começar a ter conversas reais para “levantar o véu” sobre as brutalidades do colonialismo.

“A partir do momento em que as pessoas começarem a reconhecer que as ações do passado foram erradas, elas também serão obrigadas a ver as consequências dessas ações hoje”, disse ela.

 

Conclusão

Para muitos no Congo, Lumumba representa um símbolo do que o país poderia ter se tornado após a sua independência. O seu assassinato é visto por muitos como uma oportunidade perdida para a democracia.

Devido à complacência internacional, Mobutu passou a governar o país, que mais tarde renomeou como Zaire, durante décadas, até sua morte em 1997. Esse período foi caracterizado pela pilhagem do estado e das suas vastas riquezas minerais.

A morte de Lumumba é um evento altamente controverso na história africana. A questão sobre a suposta cumplicidade da Bélgica e dos Estados Unidos no golpe e sua morte, persistiu/persiste por décadas, devido aos supostos laços “percebidos” entre Lumumba e a União Soviética.

Uma investigação parlamentar belga determinou que o governo era “moralmente responsável” pela morte de Lumumba, enquanto um comité do Senado dos EUA em 1975 descobriu um plano fracassado da CIA para assassiná-lo.

A realidade é que enquanto as antigas potências coloniais não reconhecerem os seus actos, África não será verdadeiramente livre, pois não se livrará totalmente do jugo colonial.

 

O que achas de tudo isto? Esta devolução, dos restos mortais de Patrice Lumumba pela Bélgica, não deveria ter ocorrido há mais tempo? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

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Imagem: © Alliance / DPA

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  • Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos. neste momento exerce as funções de Chefe de Redação da Mercados Africanos.

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