O Brasil está bem posicionado para desenvolver projetos voltados ao agronegócio em África e deveria aproveitar as oportunidades que o continente oferece neste setor, avaliou Natália Dias, CEO do banco sul-africano Standard Bank no Brasil em entrevista exclusiva a FinançasAfrik/Mercados Africanos.

“O Brasil é o país que domina a tecnologia agrícola tropical presente em grande parte do continente africano. Portanto, é um parceiro mais do que bem posicionado para desenvolver o agronegócio em África”.

“O agronegócio responde por cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do continente africano e emprega quase 55% da mão-de-obra. Atualmente a produção é dominada, 70% a 80%, por pequenos produtores que mantém uma produtividade muito baixa”, acrescentou.

Apesar de possuir 65% da terra agricultável e não cultivada do mundo, os países africanos ainda importam mais de 30 mil milhões de dólares americanos em alimentos anualmente e, citando nestas estatísticas, Natália Dias avaliou que o agronegócio oferece muitas oportunidades para os brasileiros que dominam técnicas agrícolas que tornaram o seu país num dos maiores exportadores de grãos e de proteína animal do mundo.

“Existe uma similaridade muito grande de clima e do solo entre o Brasil e a África. A savana africana é muito parecida com o cerrado brasileiro, existem até estudos sobre isto que fazem uma comparação e mostram como desenvolver a savana africana”, lembrou a CEO.

Com sede em Joanesburgo, o Standard Bank Group é o maior banco da África em ativos e capitalização de mercado, com operações em 20 países no seu continente de origem e cinco centros financeiros globais (São Paulo, Londres, Nova York, Dubai e Beijing).

No Brasil, a instituição centraliza o trabalho no relacionamento com empresas multinacionais, atuando no financiamento de investimentos e do comércio exterior.

O banco sul-africano já participou de grandes projetos de empresas brasileiras, incluindo o do corredor logístico de Nacala, executado pela mineradora Vale, em Moçambique.

Natália Dias considerou, porém, que atualmente não há uma visão positiva sobre a África entre os empresários brasileiros como houve no passado.

 O fluxo do comércio exterior entre o Brasil e os países da África cresceu mais de dez vezes no Governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2002- 2010), mas recuou muito nos anos seguintes e mantém tendência de queda em 2020.

“No auge, o fluxo de comércio exterior do Brasil com os países da África chegou a superar 25 mil milhões de dólares e hoje está próximo dos 15 mil milhões de dólares. Se falarmos só da África subsaariana, onde o Standard Bank atua fortemente, [o fluxo de comércio] está por volta de 7 mil milhões de dólares”, frisou Natália Dias.

Na avaliação da CEO, um elemento importante que justificou a queda foi a pauta de exportação centralizada no petróleo, minérios e outras matérias primas que enfrentaram sucessivas crises e oscilação de preços no mercado global.

Apesar de os dados acumulados apresentarem indicadores negativos, Natália Dias sente-se otimista em relação ao avanço das relações económicas do Brasil com países de África durante um webnário organizado pelo próprio Standard Bank em Outubro, que contou com a participação do vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, e a ministra da Agricultura brasileira, Teresa Cristina, porque percebeu um interesse renovado destes líderes em dinamizar as relações com a África.

“Acredito que as relações económicas precisam desta parceria dos dois setores. O setor público atua de maneira institucional, criando as bases para fomentar uma aproximação governo a governo, estabelece acordos de cooperação tecnológica e, principalmente, os acordos comerciais. O setor privado faz os investimentos e realiza os projetos”, explicou.

“É preciso ter este apoio institucional do Governo e vejo agora uma boa vontade para entender melhor as oportunidades em África. Por outro lado, o papel do Standard Bank é o de sensibilizar os empresários brasileiros, trazer estas oportunidades e mostrar que a África será o próximo mercado de consumo do mundo”, acrescentou.

Além de mobilizar esforços, Natália Dias explicou que é preciso trabalhar falsas perceções de risco dos empresários brasileiros sobre o continente africano.

“Por um lado, é preciso entender a dinâmica de África e quais são os fatores que direcionam o seu crescimento. Entender a África como uma oportunidade. Por outro lado, mudar a perceção de risco que muitas vezes está descolada da realidade”, frisou a executiva.

A representante do Standard Bank  citou que atualmente o Brasil ocupa a 124ª posição do ranking Doing Business, do Banco Mundial, que mede a facilidade de se fazer negócios em 190 países do mundo, portanto, está atrás de inúmeros países africanos como as Ilhas Maurício (13ª posição), Ruanda (38ª), Quénia (56ª), África do Sul (84ª)”.

“Sem dúvida os empresários brasileiros estão a perder oportunidades ao investir pouco na África. A população no continente africano hoje é de 1,3 mil milhões de pessoas. Até 2050 este número vai para 2,5 mil milhões de pessoas [segundo a Organização das Nações Unidas] e 25% de toda a população do mundo estará no continente africano”, frisou.

Segundo ela, o Standard Bank trabalha para sensibilizar parte do setor privado brasileiro que vê os países africanos como nações concorrentes já que o agronegócio vai se desenvolver na África com ou sem o Brasil.

“Tem muitas empresas indianas, turcas e grandes conglomerados da África do Sul comprando pequenos produtores para produzir no continente. Que a África vai se tornar uma potência agrícola no médio prazo eu não tenho dúvida. O Brasil precisa se posicionar no médio prazo até para não perder espaço para os competidores que vão estar baseados na África”, concluiu Natália Dias.

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