É muito difícil para o Brasil manter a vitalidade das relações económicas com a África sem a presença de empresas brasileiras no continente africano, avaliou Carlos Lopes, economista guineense Professor na Nelson Mandela School of Public Governance , alto representante da União Africana (UA) para as Parcerias com a União Europeia e antigo Secretário Executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para a África

“No Brasil havia empresas, digamos, ‘campeãs’, que faziam a ponte entre o tecido económico brasileiro e a África, que depois traziam as outras [empresas] mais pequenas [para o continente africano]. Foi o caso das grandes empresas de construção como a Odebrecht e a Camargo Correia, e das empresas relacionadas a mineração como a Vale e de uma certa forma a Petrobras através da extração de petróleo. Estas empresas todas desertaram a África, foram-se embora”, disse em entrevista ao Mercados Africanos, Carlos Lopes, ,

“É muito difícil manter uma relação comercial apenas de troca de mercadorias, que já não é baseada em investimento e em interesses comuns um pouco mais complexos. É isto que está acontecendo. O caminho parece ser de deterioração e não de melhoria porque não se vê empresas brasileiras interessadas em África neste momento”, acrescentou.

Dados disponibilizados pela Secretaria de Comércio Exterior do Brasil mostram que as exportações brasileiras para a África estão em queda.

As vendas de produtos brasileiros ao continente recuaram 7% em 2019 face o ano de 2018, somando apenas 7,5 mil milhões de dólares.

As importações de produtos oriundos da África para o Brasil caíram 15,5%, somando 5,5 mil milhões de dólares na mesma base de comparação.

Entre 2018 e 2019 a corrente comercial do Brasil com a África recuou 10,8%, somando pouco mais de 13 mil milhões de dólares, segundo os dados do Governo brasileiro.

Lopes lembrou que a posição do Brasil em relação a África deteriorou-se de uma forma muita rápida, depois de ter atingido um grau de integração forte durante o governo do ex-presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva (2003-2010), que voltou sua política externa para integração do país com outras nações do hemisfério sul, notadamente da África e da América do Sul.

O economista guineense ponderou que o momento atual das relações económicas do Brasil com os africanos difere da experiência de outras nações importantes no cenário global, que olham para a África com atenção porque o continente vai ter a população mais jovem do planeta numa altura em que o resto do mundo estará envelhecendo.

“Os consumidores de uma série de produtos, nomeadamente das novas tecnologias, independentemente de onde elas forem fabricadas e descobertas, os grandes consumidores serão os jovens (…) Até o fim o século, a África vai ter praticamente 50% da população com menos de 19 anos do planeta”, disse.

Lopes também lembrou que daqui até o fim do século XXI um em cada dois novos nascidos no mundo vão ser africanos, e a mão de obra africana vai ultrapassar a mão de obra da China e da Índia em 2034.

“É só fazer as contas para ver que quem não estiver presente neste mercado vai perder, sobretudo quando este mercado estiver integrado”, concluiu.

 

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