Bom clima, lugares bonitos, cultura vibrante, hospitalidade, segurança e ampla cobertura de internet. É este o cartão postal que Cabo Verde está a acenar cidadãos europeus, americanos, de países de língua portuguesa e da CEDEAO para trabalharem a partir do país. Tudo ao abrigo do programa “Remote Working Cabo Verde” (trabalho remoto) e nómadas digitais, com estadia até seis meses no país e com um visto de trabalho/turismo temporário.

Uma iniciativa do Ministério do Turismo e Transportes, o programa pretende diversificar e desconcentrar a oferta turística, uma medida vezes sugerida por operadores, e que surge numa altura em que o país está a retomar após os feitos da pandemia, deste setor praticamente paralisado desde março.

Quem quiser  aderir ao programa pode fazê-lo no site oficial www.remoteworkingcaboverde.com, através do preenchimento de um formulário. Os requisitos mínimos são comprovativo de um rendimento médio mensal de 1.500 euros por pessoa e/ou 2.700  euros por famílias, seguro de saúde, pagamento de uma taxa de 54 euros/pessoa e o visto tem a duração de 6 meses, podendo ser renovável, segundo informações do Ministério do Turismo  de Cabo Verde.

“O Programa Remote Working e Nómadas Digitais tem como objetivo diversificar e desconcentrar a oferta do produto turístico cabo-verdiano, num crescimento com sustentabilidade e na maximização dos efeitos positivos do turismo nas famílias e empresas locais”, prosseguiu o mesmo ministério, que lançou o programa na semana passada, na Praia.

“Cabo Verde possui moderna infraestrutura de telecomunicações e a Internet de qualidade e alta velocidade a um preço competitivo, com ampla cobertura em todo o país, que garantem as condições ideais para o trabalho remoto”, completou a mesma fonte, referindo que o trabalho remoto está a ganhar expressão no mundo e quer associá-lo à oferta turística.

Aproveitar a “nova largada”

Quem não podia estar mais entusiasmado como o novo produto é o ministro do Turismo e Transportes de Cabo Verde, Carlos Santos. E os objetivos são ambiciosos: aproveitar esta “nova largada” de oportunidade de negócios que ganhou força e mais praticantes com a pandemia da covid-19. E como um mal que vem para o bem, aquele governante joga muitas fichas neste programa e mostra como trunfo as vantagens do país, designadamente a sua boa localização geográfica e ter boas infraestruturas de telecomunicações.

“Queremos juntar essas duas vantagens comparativas que o país tem para podermos lançar este produto que tem a sua trave mestra nas infraestruturas de telecomunicações, ou seja, economia digital a dar cartas, numa altura em que o trabalhar fora dos escritórios começa a ser uma realidade e ganha mais importância numa altura em que a condição de distanciamento e de não aglomeração de pessoas nos obriga a recuar e sair do escritório e a trabalhar a partir de casa ”, mostrou Carlos Santos durante a apresentação do programa.

Mesmo com todas as condições naturais e pessoais do país, esses trabalhadores procuram igualmente uma internet de boa qualidade, com boa cobertura e com preço competitivo. Carlos Santos mostrou-se estar ciente desta condição, mas afirmou que, quanto ao preço, será sempre feito numa perspetiva de economia de escala. Ou seja, à medida que o país vai aumentando a procura terá igualmente que reduzir os preços deste serviço.

“E é nisso é que temos que apostar. Somos um país pequeno, com um mercado muito restrito e nós temos que apostar, alargando aquilo que é do exterior. E esta aposta neste produto é precisamente isto: procurar alargar o nosso mercado ao estrangeiro para nós conseguirmos ganhar em economia de escala para conseguirmos fazer também baixar esses custos de contexto”, apontou o titular da pasta do Turismo de Cabo Verde.

O programa é lançado agora, mas Carlos Santos disse que o Governo não arrisca avançar com números sobre quantidade desses aventureiros que o país pretende atrair por ano nem de receitas. “Vamos lançar este produto baseado naquilo que é o marketing digital e é um mercado que está espalhado pelos quatro cantos do mundo, e é aí que nós temos que fazer a nossa aposta, divulgando as boas condições, a nossa gastronomia, a nossa cultura e demonstrar que é possível juntar trabalho com ócio no mesmo espaço. E é essa a vantagem de Cabo Verde, estar perto da Europa, com conectividade, com cultura, que é o resultado da simbiose de vários povos e de vários costumes, que permite com que todo aquele que venha a Cabo Verde seja bem integrado e bem acolhido”.

Economista aplaude e deixa sugestão

Há vários meses que o economista cabo-verdiano Paulino Dias está em condição de “trabalhador remoto”, a partir da localidade natal Fajã Domingas Benta, e deambulando com um computador e uma mochila às costas pelas montanhas e vales da ilha de Santo Antão. Por isso, aplaudiu o programa do Governo de promoção de Cabo Verde e de atração de “nómadas digitais”.

“Sou testemunha de que, sim, para certas profissões, é perfeitamente possível: trabalha-se melhor, equilibra-se melhor, vive-se melhor. E contribui-se melhor para a economia local”, avaliou o economista e empresário, para quem o país vai conseguir atrair “uma boa fatia” deste tipo de turismo.

Entretanto, Paulino Dias deixou a sugestão de combinar este programa com outro, de atração/retenção de moradores para “comunidades em despovoamento acelerado”.

Para o economista, esta estratégia poderia incluir várias abordagens, começando pelo  mapeamento e classificação oficial dessas comunidade, seguido do estabelecimento dessas zonas como zonas de internet livre, com serviço disponibilizado gratuitamente.

Programa de arrendamento de habitações não-ocupadas, programa de formação/capacitação de residentes dessas localidades e programa de incentivos fiscais a empresas e trabalhadores, são outros das sugestões deixadas pelo economistas natural da ilha de Santo Antão.

“São várias as vantagens desta abordagem integrada: atração de “nómadas digitais”, transferência de know-how (conhecimento), repovoamento e redinamização de comunidades, criação de empregos nessas comunidades, mais rendimento para as famílias”, enumerou.

Entendendo que os investimentos feitos pelo Estado podem ser recuperados no futuro, Paulino Dias considera que pode-se começar com um projeto-piloto, com uma amostra selecionada de comunidades-alvo, em Santo Antão, São Nicolau, Interior de Santiago e Brava, que são regiões que registam perdas de população em Cabo Verde.

Turismo tenta renascer

O turismo é há muito o motor da economia cabo-verdiana, contribuindo atualmente com cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas este setor vital está praticamente no chão desde março por causa das restrições impostas pela pandemia da covid-19, com perdas que o Governo estima podem chegar aos 70%.

Em 2019, o país bateu o recorde com perto de 820 mil turistas recebidos, e o Governo tinha como meta chegar a um milhão de visitantes até 2021, objetivo que dificilmente vai ser conseguido com a altura conjuntura. Mas para o próximo ano, o Executivo já mostra algum otimismo e prevê o aumento do número de turistas, entre 22% a 35%. Mas tudo vai depender do quadro epidemiológico, não só no país – atualmente com números reduzidos de infeção – mas também no mundo, especialmente nos países mais emissores de turistas para o arquipélago.

Suspensas em março, Cabo Verde retomou em outubro as ligações áreas internacionais com voos regulares comerciais de passageiros, estando previsto o regresso da oferta turística dos grandes operadores ainda este mês, para o setor começar a renascer depois do abanão provocado pela pandemia durante quase todo este ano.

Para esta fase inicial de recuperação do turismo, a aposta de Cabo Verde é nas ilhas do Sal e da Boa Vista, as duas mais turísticas do arquipélago e que neste momento têm apenas um caso cada ativo de covid-19.

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