A história do Cabo Verde independente confunde-se com a história da Cruz Vermelha de Cabo Verde, que tem caminhado lado a lado com o país ao longo dos últimos 45 anos. E várias são as áreas de intervenção, num país fustigado por secas prolongadas, muitas vezes quando chove é com alguma intensidade, erupção vulcânica, vários problemas sociais e agora o desafio maior: a pandemia do novo coronavírus.

Outra área de intervenção são os jogos sociais, que a instituição humanitária tem agora a concessão por 20 anos, para continuar mudar a vida dos cabo-verdianos. O grande passo será a sua informatização, em que vão ser precisos cerca de 3,6 milhões de euros, conforme disse neste entrevista o presidente da instituição humanitária, Arlindo Carvalho.

Como caracteriza a situação da Cruz Vermelha de Cabo Verde?

A Cruz Vermelha é uma instituição humanitária que resulta de tratados internacionais que detém o mandato internacional no campo humanitário e social. É uma instituição forte, credível, aceite pelos cabo-verdianos, pelas instituições do Estado e do setor privado e a nível internacional. Tem projetos consistente, uma visão clara, tem uma estratégia e tem um plano estratégico para a sua intervenção nos próximos anos.

Quantos voluntários a Cruz Vermelha tem neste momento?

Com base no último recenseamento que fizemos, confirmou-se a existência de cerca de 3.000 voluntários, sendo que metade é que estão no ativo. Mas a plataforma está aberta e vem recebendo propostas e candidaturas, mas atualmente temos cerca de 1.500 voluntários ativos e empenhados. No quadro da resposta à covid, temos cerca de 600 que foram assegurados através da agência que trabalha com a federação na Suíça.

Há necessidade de mais voluntários?

Sim, sim. As demandas assim requerem. Cabo Verde tem os seus problemas próprios, que derivam da sua insularidade, do seu nível de desenvolvimento, mas também tem outros problemas que resultam das políticas mundiais. O voluntariado é uma forma de mitigar os gastos que o Estado deve empregar na resposta às demandas, por um lado, e, por outro lado, é um espaço de exercício da cidadania. Portanto, precisa-se de voluntários de toda a ordem, quer pedreiros, condutores, auxiliares, magistrados, advogados, juristas, economistas, professores. Toda e qualquer pessoa é bem-vinda à Cruz Vermelha e terá o seu espaço para exercer a sua cidadania.

Nos últimos anos Cabo Verde teve chuvas torrenciais, secas prolongadas, erupção vulcânica e agora a covid-19. São desafios enormes para a Cruz Vermelha?

Exatamente. A Cruz Vermelha na sua génese tem essa questão das adversidades. Resultou de um desastre provocado pelo homem e pela natureza e Cabo Verde, para além da seca que vem ciclicamente assolando o país, tem as consequências das chuvas. Temos um dilema: quando não chove temos problemas, quando chove vem mais problemas. Por outro lado temos vários problemas que resultam do processo de desenvolvimento, as assimetrias, a pobreza, marginalização de certas categorias sociais, a questão da inclusão, o meio ambiente, mas também temos outros problemas de fundo que a Cruz Vermelha é auxiliado dos poderes públicos no campo humanitário. Estamos a fazer intervenção em conjunto com instituições que operam em situações de crise e desastres humanitários, nomeadamente as Forças Armadas, Polícia Nacional, Proteção Civil, Câmaras Municipais, o parlamento, e outros setores de atividade do Estado. Essa é uma área de intervenção muito forte que requer uma explicação minuciosa para que os cabo-verdianos possam apreender a essência real da Cruz Vermelha, que não é só mobilizar recursos para atenuar a fome, calçar ou vestir pessoas. É para além disso, é defender a dignidade do ser humano.

Como é que tem sido a gestão da pandemia da covid-19 no país?

A Cruz Vermelha tem uma visão própria. Em dezembro de 2019, na última assembleia-geral do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho tínhamos aprovado uma visão para atuarmos em relação às pandemias. Não se falava ainda da covid, mas tínhamos uma visão, já sabíamos que são fenómenos, são processos que podem surgir e a partir daí trabalhou-se todo um plano de resposta à covid, a nível do movimento e do ponto de vista interno. Temos um plano de contingência, que foi aprovado pelos órgãos competentes, no quadro do qual já mobilizamos muitos recursos que vão sendo implementados de Santo Antão à Brava. A resposta da Cruz Vermelha vai sendo uma resposta solidária, uma resposta humanitária, juntamente com as forças vivas da sociedade e com as estruturas e órgãos do Governo da República, mas também com o setor privado.

Uma das consequências da covid-19 foi a suspensão em março e durante dois meses dos jogos sociais. Na altura disse que a Cruz Vermelha iria sugerir ao Governo que abdique dos 13% que serão cobrados assim que os jogos fosse retomados. Isso foi feito, foi concedido?

Nós temos excelentes relações com o Governo, não só no quadro de resposta à covid, mas também em relação a outros setores. Na verdade tivemos que suspender por um período de dois meses o funcionamento dos jogos, dado a situação que reinava. Como sabe, os jogos sociais constituem a principal fonte de receita da Cruz Vermelha, sendo certo que garantem cerca de 90% de receitas e durante esses dois meses tivemos que funcionar com outros recursos que mobilizámos a nível dos parceiros e entendemos que, no quadro que se desenhava, devíamos solicitar ao Governo que abdicasse da parte que lhe cabe enquanto parte do sistema para podermos fazer um bom uso dessa fatia. Enviámos um ofício ao senhor ministro das Finanças, que é também vice-primeiro-ministro, e aguardamos uma resposta serenamente, sendo certo que estamos a gerir, a trabalhar com aquilo que é nosso e aquilo que conseguimos mobilizar junto dos parceiros. Para além disso, conseguimos assinar um contrato-programa com o Governo de Cabo Verde no setor da segurança alimentar e assistência psicossocial e vem dando uma boa contribuição a nível da proteção dos nossos velhos, mas também na resiliência do espaço onde desenvolvemos atividades da Cruz Vermelha, em relação a terceira idade.

Qual o valor das perdas que a Cruz Vermelha vai ter este ano?

Neste momento, os estudos que encomendamos apontam para que até ao final do ano no sentido de a Cruz Vermelha vir a ter uma perda que ronda os 27-28%.

A concessão por 20 anos, que antes não existia, da organização e exploração da lotaria, totoloto e joker dá mais segurança à Cruz Vermelha?

Com certeza. A segurança jurídica é fundamental em qualquer negócio. Tínhamos alguns decretos, algumas portaria, mas através daquele quadro normativo que existia resultam alguns aspetos que configuram fragilidades porque a qualquer momento um Governo poderia retirar os jogos à Cruz Vermelha. Mas agora não, agora há um contrato de concessão para 20 anos, a Cruz Vermelha vai cumprir a sua parte, o Estado de Cabo Verde vai cumprir a sua parte. Acho que essa visão do Estado em criar um quadro normativo que resulta da vontade de povo cabo-verdiano – o regime jurídico foi aprovado a nível do parlamento e também as leis que se seguiram – mostram uma convergência entre a vontade do povo cabo-verdiano, das suas instituições e a Cruz Vermelha em relação à demanda humanitária e social do país.

A partir de agora disse que a Cruz Vermelha vai apostar na inovação. De que forma?

Costumo defender que a inovação é o dia a dia de hoje. Uma instituição que não reconhece a importância das novas tecnologias para abordagem dos assuntos, quer a nível da governação, quer a nível da gestão de investigação, está a redondamente falhada e sujeita a fracasso. E a Cruz Vermelha tem consciência disso. O lema para a estratégia 20-30 aprovada pelo Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho é “Excelência no modus operandi, excelência no funcionamento dos órgãos e serviços  e excelência na abordagem dos assuntos humanitários”. Excelência quer dizer o quê? Trabalho com novas tecnologias, com os resultados das pesquisas científicas, trazer para a instituição humanitária essa ferramenta tecnológica para podermos, de uma forma mais eficiente e eficaz, intervir junto das comunidades.

Com isso, o que é que as pessoas, as comunidades, sobretudo as mais periféricas, vão ganhar?

Muita coisa. Em primeiro lugar os apostadores, que fazem os jogos acontecerem. Os apostadores vão poder, a partir das suas próprias residências ou posto de trabalho, colaborar com a Cruz Vermelha e com o Estado de Cabo Verde, apostando, usando um smartphone, um computador, um posto vint4. Enfim, as ferramentas tecnológicas estão disponíveis para esse tipo de abordagem, por um lado. E podem jogar de dia, à noite, ou de madrugada. E podem jogar aqui ou fora de Cabo Verde. Isso é um ganho. Por outro lado, vai-se fazer uma certa justiça em termos de equilíbrio entre as ilhas. Neste momento, temos ilhas que fecham o jogo às quartas, quintas-feiras, outras não, como aqui na Praia, trabalham até às segundas-feiras. Há um desequilibro por causa do sistema logístico que não permite que todos joguem até a mesma hora ou no final do mesmo dia. O sistema vai, por um lado, resolver essa questão e, por outro lado, vai aumentar a segurança nos jogos e vai também propiciar uma maior visualização dos jogos em matéria de transparência pelos apostadores e não só, também pelos cidadãos e todos aqueles que acompanham os jogos sociais.

Isso vai ser a partir de quando e qual o investimento que vai ser necessário?

É um processo. Em primeiro lugar devíamos ter uma lei-quadro, já temos, depois as leis ordinárias, já surgiram algumas, agora vamos trabalhar as leis em relação aos regulamentos dos jogos. O projeto já está montado com uma grande multinacional que detém experiência no mercado internacional dos jogos. Assinámos um conjunto de acordos para assegurar o apoio técnico, tecnológico e normativo. Assinámos um acordo muito importante com a Santa Casa Misericórdia de Lisboa, que tem experiência no domínio, assinámos um acordo com uma agência de desenvolvimento económico a nível europeu, já há acordos com bancos comerciais, já tínhamos iniciado todo um processo de montagem de um acordo de cooperação com a CV Telecom, com a Unitel T+, estamos a trabalhar com eles, vamos trabalhar com a SISP (Sociedade Interbancária e Sistemas de Pagamentos) e vamos trabalhar com outros operadores, tanto no domínio tecnológico, como no domínio financeiro e de marketing. Por outro lado, na última assembleia-geral da Cruz Vermelha de Cabo Verde aprovou-se um conjunto de instrumentos que são importantes para o incremento dos jogos, nomeadamente os estatutos, numa visão moderna. O regulamento orgânico da Cruz Vermelha que absorve todas as implicações que derivam do regime jurídico dos jogos e o Código de Conduta que vai moldar o comportamento não só dos profissionais da Cruz Vermelha, mas também dos voluntários que vão trabalhar com o sistema. São grandes documentos que foram aprovados e que vão para o Governo, e até o emblema da Cruz Vermelha. São sete propostas de lei que vamos enviar para o Governo para feito de análise e aprovação. A Cruz Vermelha já vem trabalhando há algum tempo para a assinatura do contrato de concessão.

Qual o investimento necessário para a informatização dos jogos?

 

O custo previsto em termos de toda a feitura, montagem da parte de engenharia informática, engenharia financeira, os equipamentos de suporte, complementos, está calculado a volta de 400 milhões de escudos cabo-verdianos (3,6 milhões de euros).

Esse valor já está disponível?

Nós temos uma visão, temos cenários, temos planos e estávamos justamente à espera da assinatura deste documento [o contrato de concessão dos jogos] para podermos avançar com isso. Sendo certo que a Cruz Vermelha é uma entidade credível tem os seus recursos também e tem capacidade de mobilização de recursos.

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite o seu comentário!
Por favor, digite o seu nome aqui


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.