O comércio do Brasil com os países árabes, incluindo nações do norte da África como Marrocos e Egito, mas também o Sudão continua forte apesar da crise económica provocada pela pandemia de covid-19, afirmou Tamer Mansour, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, entidade empresarial que atua há mais de 60 anos fazendo a ligação entre agentes públicos e privados do país sul-americano com o mundo árabe.

Em entrevista ao Mercados Africanos, Mansour fez um panorama sobre as relações comerciais do Brasil com o mundo árabe e os impactos da pandemia. Ele lembrou que os países árabes, incluindo as nações africanas, ocupam o terceiro lugar na balança comercial das exportações brasileiras para o mundo em 2020, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

“As relações comerciais com o Brasil aumentaram quase seis vezes na última década. Nos últimos dez anos houve uma evolução muito grande em termos de relacionamento do Brasil e com o mundo árabe. Quando tratamos do norte da África, em geral é preciso deixar claro que a ligação governamental entre estes países e o Brasil é muito forte. As relações vão muito bem em termos governamentais”, frisou Mansour.

O secretário da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira reconheceu que a pandemia afetou as importações brasileiras de produtos do mundo árabe principalmente porque a moeda do país, o real, se desvalorizou muito face ao dólar.

“As importações, para mim, são um dado que a pandemia afetou bastante. Houve a subida do dólar. Tivemos uma subida muito forte da moeda norte-americana e isto causou uma diminuição natural das importações brasileiras, principalmente das importações de petróleo”, pontuou.

Um informe de Inteligência de Mercado realizado pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira indicou que de janeiro a novembro as vendas do Brasil aos países árabes alcançaram 10,23 mil milhões de dólares, dado que indicou uma queda de 9,5% face o mesmo período de 2019, enquanto as importações atingiram 4,47 mil milhões de dólares, montante que expressou uma queda de 30,1% na mesma comparação.

Relações comerciais do Brasil com o Marrocos estão no auge

O secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira avaliou que se por um lado os números mostram queda do fluxo comercial do Brasil com as nações árabes como um todo, por outro houve um dado muito positivo no período sobre as importações de fertilizantes oriundos do Marrocos.

“O Marrocos virou o maior exportador de fertilizantes para o Brasil. Na realidade o empresário brasileiro escolheu suas prioridades. Como a prioridade hoje são os negócios ligados ao agronegócio, as compras de produtos como fertilizantes permaneceram em alta. Agora realmente houve uma queda dos outros produtos, justamente pela subida do dólar”, salientou Mansour.

Entre janeiro e novembro, segundo dados do Comex Start, um sistema online de divulgação de estatística de comércio exterior do Governo do Brasil, as importações de produtos marroquinos para o do país sul-americano saltaram 14% face o mesmo período de 2019.

Oitenta e um por cento das exportações do Marrocos para o Brasil foram de adubos e fertilizantes químicos, segundo a mesma base de dados.

Nos onze primeiros meses do ano, o Brasil importou 1.032 milhões de dólares do Marrocos e exportou 581,4 milhões de dólares. A corrente comercial entre os dois países chegou a 1.613 milhões de dólares, montante que indicou uma alta de 19,9% face o mesmo período de 2019.

“As relações do Brasil com o Marrocos, especialmente nos últimos dois anos, estão no auge”, defendeu Mansour.

“A pauta começa a se diversificar. O Brasil começou a se abrir para produtos marroquinos como a sardinha e os fertilizantes. Eu vejo que o relacionamento governamental é muito forte entre os dois países. Houve algumas reuniões em termos de assinatura para um acordo com o Mercosul. Houve algumas reuniões para assinatura de alguns acordos sobre bitributação, acordos de investimentos. Eu vejo a relação do Brasil com o Marrocos com bons olhos”, completou.

Fazendo uma breve análise sobre as trocas comerciais do Brasil com outros países, o secretário da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira citou a Mauritânia, nação que ele considera ter se tornado mais próxima do Brasil após a aquisição de um sistema de segurança de uma empresa ligada a Embraer.

“Todo o sistema de segurança do porto e das fronteiras hoje é um sistema desenvolvido pelo Brasil. Isto demonstra que a Mauritânia começa a deixar de lado seus laços estratégicos com os países europeus, em específico com a França, e começa a olhar para os outros com bons olhos, principalmente para o Brasil”, salientou.

Na Argélia há ainda instabilidade política, mas Mansour defendeu que a relação com o Brasil é muito forte.

O informe de inteligência de Mercados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira destacou que a Argélia é o quarto maior destino das exportações brasileiras entre os países árabes, atrás apenas dos Emirados Árabes Unidos, da Arábia Saudita e do Egito.

“Existe uma relação boa com a Tunísia. Temos muitas oportunidades de investimentos de brasileiros na Tunísia, especialmente na área farmacêutica e na área de eletrónicos, são duas áreas que a Tunísia como hub [de negócios] podia ser um bom parceiro”, pontuou o secretário.

Sudão tem potencial para ser parceiro do Brasil no agronegócio

Para Mansour o Sudão, nação com quem o Brasil registou uma corrente comercial de apenas 25 milhões de dólares de janeiro a novembro, segundo dados do Comex Start, poderia ser um parceiro estratégico do país sul-americano na África no setor do agronegócio.

“A relação do Brasil com o Sudão se complicava bastante por causa do embargo internacional aos bancos sudaneses, mas mesmo assim nós vimos agora, depois do levantamento do embargo, uma oportunidade muito forte para parcerias estratégicas  em áreas do agronegócio”, destacou.

“Acho que tem muitas oportunidades para as empresas brasileiras olharem o Sudão hoje com bons olhos para cooperações técnicas. Porque não pensamos no Sudão como um ‘hub’ para investimentos em segurança alimentar agrícola [na África] uma vez que o Sudão tem uma terra muito fértil?  Podemos trabalhar, usando a tecnologia e a experiência brasileira, investimentos financiados pelos países do Golfo que têm este interesse e já investem no Sudão”, concluiu.

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