Conheça os Kara do rio Omo.

Conhece os Kara? Não? Então vai ficar a conhecer.

África é um dos continentes com alguns povos que ainda mantêm as suas culturas intactas ou quase.

Apresentamos numa série de vários artigos alguns destes povos de África (mas muito poucos) que conseguiram preservar as suas culturas intactas durante séculos.

Em áreas remotas e planícies ricas do continente, existem grupos de pessoas que continuam a viver pacificamente, sem depender de nenhuma das invenções que o mundo moderno tanto valoriza.

Trazemos aos nossos leitores algumas dessas comunidades cujas tradições, costumes e modo de vida têm resistido surpreendentemente ao teste do tempo e à força arrebatadora da modernização.

Embora discutível para uns, não podemos deixar de reconhecer a coragem dos que continuam a viver da maneira que os seus antepassados viveram há gerações.

 

Os Kara

Conheça os Kara do rio Omo
Mulher Kara, com os seus colares ornamentais

Com uma população estimada de apenas 1.600 indivíduos, o Povo Kara compõe alguns dos mais pequenos povos, em termos de números, que mantem praticamente intactas as suas culturas e que ainda restam em África, sendo mesmo, o mais pequeno da sua região.

Os Kara, muitas vezes erroneamente chamados de Karo, são uma população seminómade que vive na margem oriental esquerda do vale do rio Omo, no sul da Etiópia, perto da fronteira do Sudão do Sul, região que hospeda pouco mais de uma dúzia de diferentes etnias. Estas tribos de pastores representam alguns dos últimos povos nativos africanos com pouquíssima influência da cultura ocidental.

Falam os seus próprios idiomas, vestem roupas tradicionais confeccionadas com couro de cabra e seguem os ritos ancestrais. O corpo pintado dos homens e o corte de cabelo específico das mulheres são marcas próprias dessa tribo.

Os Kara são definidos como as pessoas que comem peixe, já que Kara significa peixe, na língua local.

No passado, os Kara eram comerciantes e intermediários e ocupavam uma posição-chave na rede das rotas comerciais que atravessavam essas áreas e chegavam aos atuais Quénia e Sudão do Sul.

Devido a doenças graves e contágios vindos de fora, o número de Kara foi-se reduzindo, assim como os seus rebanhos, que padeceram de maleitas similares.

 

O cabelo das mulheres

Conheça os Kara do rio Omo
Jovem Kara com o seu penteado tradicional

Os cabelos das mulheres Kara são tratados com uma pasta vermelha, uma mistura de manteiga animal e pigmento mineral. São curtos, com apenas um ou dois centímetros de altura. Os cabelos são enrolados, com a ajuda de um palito, para formar bolinhas vermelhas. O penteado cobre apenas o topo do crânio e parece uma espécie de peruca, cheia de minúsculas esferas.

 

As pinturas corporais

Conheça os Kara do rio Omo
Um jovem Kara a mostrar orgulhosamente as suas pinturas corporais

os Kara continuam a praticar vários costumes tradicionais herdados dos seus antepassados desde há muitos séculos atrás. Uma dessas tradições é a cultura da arte corporal, que se tornou parte intrínseca da identidade do grupo.

Os Kara pintam os corpos para expressar beleza. Os desenhos são unicos e individuais, não seguindo nenhum padrão em particular. Também não são pinturas simbólicas, mas meros enfeites da vida cotidiana. Pintar o corpo é um jogo, faz parte do prazer de ser diferente.

Qualquer cor é utilizada, a argila branca é a mais comum, mas podem usar o pigmento vermelho do ferro, o negro do carvão, o ocre da terra ou o amarelo da rocha mineral.

 

O cotidiano

Conheça os Kara do rio Omo
Jovens Kara com as suas fieis AK47

Os homens jovens quase sempre carregam a sua fiel AK47, na verdade é mais um símbolo de estatuto social do que uma arma para ser usada contra algum inimigo.

Tradicionalmente e mais importante e fundamental é necessário possuir uma, para poder casar, pois mostra que, se necessário, é capaz de defender a aldeia, o gado de ladrões e defender os demais membros de animais perigosos.

As casas circulares são construídas com troncos de madeira colocados lado a lado, sem nenhum barro nas paredes laterais, e levam um telhado de palha seca por cima.

Tanto homens como mulheres usam, no seu dia a dia, diversidade de colares, braceletes, brincos, argolas ou gargantilhas.

 

A sobrevivência ameaçada

Conheça os Kara do rio Omo
A barragem Gilgel Gibe III

A inundação anual do rio Omo alimenta a rica biodiversidade da região e garante a segurança alimentar e a sobrevivência dos Kara, especialmente porque a precipitação é baixa e irregular.

Eles dependem desta inundação para praticar um sistema de cultivo, nas planícies resultantes da inundação, no qual utilizam o lodo enriquecido de nutrientes que se forma pelo lento recuo das águas ao longo das margens do rio, para cultivar sorgo, milho e feijão.

No entanto, em julho de 2006, o governo etíope assinou um contrato para construir A Gilgel Gibe III, a maior barragem hidroelétrica do país, em direta violação das leis da Etiópia, cuja legislação ambiental estipula que antes de qualquer projeto ser aprovado, deverá ser efectuada uma avaliação de impacto ambiental e social, algo que neste caso, não foi feito.

Agora, com a hidroelétrica construída, comprova-se que a barragem está a ter um impacto enorme sobre o delicado ecossistema da região, alterando as cheias sazonais do Omo e reduzindo drasticamente o seu volume de jusante. Isto está a levar a uma seca gradual de grande parte da zona ribeirinha acabando por eliminar completamente a mata e as planícies de lodo resultante das inundações.

 

Conclusão

Com o desaparecimento da inundação natural e a produção dos seus ricos depósitos de lodo, as economias de subsistência correm o risco de colapsar levando a uma escassez de alimentos e em última instância ao desaparecimento do povo Kara.

 

O que pensas sobre isto? Já tinhas ouvido falar dos Kara? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

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