O diretor do Programa Africano no Instituto Real de Estudos Internacionais britânico, conhecido como Chatham House, conversou com o Mercados Africanos sobre a evolução das negociações entre Angola e a China sobre a dívida pública.

“Metade do serviço da dívida de Angola em 2020 era para os credores chineses, representando mais de 45% da dívida externa da nação, ou seja, 20,1 mil milhões de dólares”, explica o investigador, para dar a noção de que a China é fundamental na reestruturação da dívida pública angolana, que ‘come’ metade do orçamento do país.

Dos 20 mil milhões que o Governo de Angola reconhece como dívida à China, cerca de 75%, ou seja, 14,5 mil milhões de dólares, é devido ao Banco de Desenvolvimento da China, e 5 mil milhões ao Banco de Importações e Exportações da China (Exim Bank), para além de uma pequena parte devida ao maior banco chinês, o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC).

“Até agora, Pequim tem concordado em adiar os pagamentos ao Exim Bank que são normalmente feitos através da venda direta de petróleo angolana pela Unipec, mas a China está menos inclinada a fazer concessões relativamente aos 15 mil milhões devidos ao BDC e ao ICBC, que foram contratados em termos comerciais”, explica Alex Vines em declarações ao Mercados Africanos.

A grande questão, diz a Alex Vines, tem a ver com a dependência de Angola relativamente a um só credor, que tem crescido em influência no continente e que é dos poucos financiadores internacionais que não apresenta condições de reformas ou de política económica para emprestar dinheiro, aceitando inclusivamente ser pago em petróleo.

“Há sinais de que o Governo de João Lourenço está disposto a rechaçar um crescimento da influência chinesa, mas a China, por seu lado, quer uma compensação por ter adiado os pagamentos, tendo sugerido uma concessão da administração dos caminhos de ferro de Benguela ou de outras instalações portuárias, o que foi rejeitado por Luanda”, disse Alex Vines, levantando o véu sobre o que está em causa nas negociações entre Luanda e Pequim, até agora mantidas em segredo.

João Lourenço rejeitou a ideia de concessionar mais instalações estratégicas aos chineses e ofereceu mais uma parte da exploração de petróleo em vários poços à companhia petrolífera nacional chinesa, não se sabendo ainda a resposta de Pequim.

“Continua a não ser claro se a oferta de mais participação na exploração de petróleo foi interessante para Pequim e quais são os termos finais do pagamento da dívida, mas durante o último mês tem havido mais liquidez em moeda externa em Angola e parece ter havido uma forte redução de carregamentos de petróleo para a China”, diz Alex Vines.

Certo, conclui o académico que há décadas estuda os desenvolvimentos na África subsaariana, é que “o Governo quer criar espaço político para explorar alternativas a Pequim, mas resta saber se a política chinesa e as condições económicas a seguir à pandemia vão permitir isso”.

 

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