A semana até começou bem para a África do Sul, que conseguiu garantir cerca de 6 mil milhões de euros em investimentos para o país numa conferência organizada pelo Presidente, mas a pior notícia chegou na sexta-feira, e chegou a dobrar: a Moody’s e a Fitch desceram o ‘rating’ do país, colocando-o vários níveis abaixo da recomendação de investimento, ou seja, desceram ainda mais a avaliação negativa que já faziam, e fizeram disparar os alarmes no Governo liderado por Cyril Ramaphosa.

“A decisão da Moody’s e da Fitch é dolorosa”, admitiu o ministro das Finanças logo no sábado, explicando que com esta descida na avaliação sobre a qualidade do crédito da África do Sul, a economia mais industrializada da África subsaariana e o país mais atingido no continente pela pandemia de covid-19, a vida vai ficar ainda mais difícil para os sul-africanos.

“As continuadas descidas no rating vão levar o serviço da dívida para um custo insustentável, piorar o valor dos nossos ativos e reduzir o rendimento disponível das famílias”, lê-se num comunicado do Ministério das Finanças, que diz que a decisão dos analistas mostra que é urgente a implementação de reformas económicas estruturais para evitar mais descidas no rating.

Para já, a África do Sul conseguiu evitar que a Standard & Poor’s, que também analisou o rating do país na sexta-feira, descesse o nível de avaliação, optando por mantê-lo, mas agora o país de Ramaphosa tem sobre si o anátema de as três maiores agências de rating a nível global olharem para a economia e decretarem vários patamares abaixo  da recomendação de investimento.

Na base da decisão das agências de rating está o crescente peso da dívida, o fraco crescimento da economia, em recessão há vários meses, e, claro, os efeitos devastadores da pandemia.

“A principal razão que sustenta a descida para o nível Ba2 é a previsível deterioração da robustez orçamental da África do Sul a médio prazo”, lê-se na avaliação da Moody’s consultada pelos Mercados Africanos.

Na explicação da decisão, os analistas salientam que a revisão anterior do rating, ainda antes da pandemia, estava ligada à degradação do perfil de crédito, enquanto que agora a principal razão “é a avaliação sobre o impacto do choque da pandemia, quer diretamente no peso da dívida, quer indiretamente na intensificação dos desafios económicos e nos obstáculos sociais às reformas”.

Nos últimos anos, a estratégia do Governo tem assentado nas reformas estruturais como fonte de promoção do crescimento a médio prazo e de consolidação das contas públicas, mas para os analistas da Moody’s, “apesar de a estratégia continuar válida, os riscos de implementação subiram”.

Na mesma linha, a Fitch elenca a dívida e o choque da pandemia como as principais causas para a descida do ‘rating’ para BB-, apontando que “a descida do rating e a perspetiva negativa refletem a elevada e crescente dívida pública, exacerbada pelo choque económico desencadeado pela pandemia de covid-19”.

Pior: “a tendência de crescimento muito baixo e a desigualdade excecionalmente elevada vão continuar a complicar os esforços de consolidação orçamental”, dizem os analistas da Fitch.

A agência de rating espera que o PIB permaneça abaixo dos níveis do ano passado até 2022, estando em recessão desde o terceiro trimestre do ano passado, e antevê uma recuperação económica no final deste ano, mas que é, ainda assim, insuficiente para evitar a recessão prevista de 7,3% em 2020.

Mais otimista, a Standard & Poor’s decidiu manter o nível de rating, mas já o colocava três níveis abaixo da recomendação de investimento.

“O confinamento associado ao combate da covid-19 afundou a África do Sul na sua mais abrupta contração económica trimestral de abril a junho, implicando um grande alargamento do défice orçamental e uma rápida subida da dívida pública”, lê-se na nota da agência de rating, que deixa, ainda assim, uma nota de otimismo.

“Há indicações de que a economia começou a recuperar no terceiro trimestre e esperamos um regresso ao crescimento anual positivo e uma lenta consolidação orçamental entre 2021 e 2023”, concluem os analistas.

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