Entrevista Exclusiva a Andreia Benolli, Presidente da Associação Empresarial de Cabo Verde

Parte II

Empresários cabo-verdianos criam associação (II)

Em plena pandemia da covid-19, empresários cabo-verdianos constituíram em setembro de 2020 uma associação, a Associação Empresarial de Cabo Verde, que segundo o seu presidente, Andreia Benolli, é a “voz que faltava” para levar os problemas do setor privado “onde é preciso”.

Nesta segunda parte da entrevista ao Mercados Africados, Benolli conversou com o nosso correspondente sobre como as empresas atravessaram e sobreviveram à pandemia

MA: Como sobreviveram à pandemia da covid-19?

AB: Gostei da palavra “sobreviveram”. Trata-se mesmo de sobreviver!

Alguns empresários conseguiram voltar nos próprios países de origem (Europa e África Ocidental), mas aqueles que decidiram ficar conseguiram sobreviver negociando as dívidas, os contratos de arrendamento, os salários dos funcionários, aumentando os empréstimos bancários e familiares. Alguém decidiu para hibernar a empresa até uma real retoma. Outros decidiram que era melhor fechar ou declarar falência.

Muitas pessoas conseguiram ver hoje que os empresários são pessoas como as outras, com momentos bons e momentos ruins. O que marca a diferença é que mesmo em momentos difíceis, os empresários pensam em novas formas de negócios, pensam em tornar os problemas em oportunidades. Precisamos ser mais flexíveis, menos ligados à nossa zona de conforto, temos que encontrar dentro de cada um de nós aquele jovem que tinha um sonho e que fez de tudo para que se tornasse realidade.

MA: Quantas empresas fecharam desde o ano passado, tendo em conta que quase 75% são microempresas?

AB: Micro e pequena empresas são muitas vezes as mais resilientes, porque são unipessoais ou construídas num contexto familiar, pelo que são mais flexíveis em termos laborais. Penso que a informação certa a nível nacional poderá ser disponibilizada pelo Ministério do Trabalho. Até hoje esta informação não foi publicada, pelo que não consigo dar uma resposta.

MA: Quais foram os níveis de prejuízos de uma forma geral?

AB: O que mais preocupa são os dados relativos aos trabalhadores, porque a quase totalidade dos grandes resorts e hotéis fechou e milhares de trabalhadores foram despedidos ou simplesmente não foram renovados os contratos. Um enorme desperdiço de recursos humanos e know-how adquirido com formação e com experiência profissional, mas sobretudo um impacto social enorme porque são salários que não entram nas casas e geram um status de fragilidade e estreasse psicológico do núcleo de qualquer sociedade: a família.

MA: As medidas adotadas pelo Governo têm sido suficientes para minimizar os impactos da pandemia?

AB: Um país tão grande, mas tão pequeno em termos económicos, não pode sustentar o setor privado. As políticas de lay-off foram financiadas através dos fundos dos trabalhadores, ou seja, do Instituto Nacional de Previdência Social. Nomeadamente, as empresas foram atuadas políticas de moratórias das dívidas bancárias, pagamento em prestações das dívidas com as Finanças e garantias bancárias por empréstimos a taxa fixa e principalmente destinados a reforçar a tesouraria ou novos investimentos.

Resumindo, os apoios às empresas são de facto a custo zero, ou quase, pelo Estado.

O setor do turismo contribui em 2019 a pagar 46% das receitas do Estado, ou seja, de tudo o dinheiro que o Estado recebe para pagar as próprias despesas, 46% teve origem no turismo e acerca de 80% das despesas do Estado são custos fixos. Com a chegada do Covid-19 na Europa o turismo fechou as portas e as consequências em termos de receitas do estado foram brutais. Não apenas em termos de impostos sobre lucros correntes, mas também em termos de cobrança referente ao ano antecedente: garantir liquidez às empresas era mais importante que pagar taxas e impostos, também porque depois de 6 meses do início da pandemia em Cabo Verde, todos os empresários compreenderam que não se tratava de uma coisa rápida.

Cabo Verde tem um grande desafio nos próximos anos: reduzir as despesas com o pessoal no setor público e das empresas a capital público. Trata-se de um grande desafio em termos políticos, porque o risco é de não agradecer os próprios eleitores no curto/medio prazo. Mas qual a alternativa?

Temos que pensar que somos um Estado, mas de apenas 480.000 residentes, pelo que não podemos ter todos os institutos, agências, corpo diplomático, etc. que normalmente são detidos pelos países com milhões de residentes e contribuintes. Seria interessante ver uma lista de todas as entidades que recebem dinheiro público para se sustentar. Um país que não tem economia de escada e que por isso não consegue desenvolver o setor industrial, grande motor que gere muitas medias e pequenas empresas fornecedoras. Um país que vive de importações, turismo (25% do PIB em 2019), imobiliária, pesca e agricultura.

(continua)

Empresários cabo-verdianos criam associação (I)

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