A pandemia de covid-19 que se abateu sobre o mundo teve um efeito acrescido em Angola devido aos preços das matérias-primas e obrigou à suspensão de várias reformas estruturais e ao abrandamento dos esforços de consolidação orçamental.

Em entrevista ao Mercados Africanos, a analista Dominique Fruchter, especialista em Angola na seguradora de crédito Coface, a maior a nível mundial, explica o que está em causa.

“A crise da covid-19 afetou Angola através de dois canais, o primeiro foi o petróleo e gás, que representa 50% do PUB e 92% das exportações; os preços do petróleo afundaram-se e a produção caiu devido à descida da procura mundial e à aplicação do acordo de redução da produção na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP)”, disse a analista.

A consequência, aponta, “é que as receitas desceram para metade e, para além disso, também os diamantes, que valem 5% do PIB, também caíram em preço e produção”.

O segundo canal de impacto foi comum a todas as economias mundiais, e tem a ver com as medidas de distanciamento e de confinamento impostas pelos governos para combater a propagação da pandemia, com as negativas consequências conhecidas em termos de atividade económica.

“A economia vai estar em recessão pelo quinto ano consecutivo, prevendo-se que caia 4% e deverá crescer, no máximo, 2% em 2021”, acrescentou a analista.

Quando questionada sobre se Angola vai conseguir honrar os compromissos financeiros internacionais, a analista disse que os riscos não aumentaram e sublinhou que o problema do país foi ter entrado na pandemia já em condições financeiras desfavoráveis.

“Angola já estava em alto risco de incumprimento financeiro antes do início da crise, com a dívida pública a chegar aos 110% do PIB, que aliás foi uma das razões para o Governo ter entrado, no final de 2018, num programa de assistência financeira com o Fundo Monetário Internacional, garantindo 3,7 mil milhões de dólares”, entretanto aumentado para 4,5 mil milhões.

Beneficiando dos auspícios do FMI, “as autoridades envolveram-se num vasto programa de reformas, como o fim da indexação do kwanza ao dólar, privatização de empresas públicas para aumentar a competitividade e a diversificação, incluindo a Sonangol, introdução do IVA, cortes nos subsídios energéticos, e o país até conseguiu aceder aos mercados internacionais em novembro do ano passado”, lembrou Dominique Fruchter.

Só que no princípio de 2020, concluiu a analista, o mundo mudou: “a crise suspendeu o programa de reformas, especialmente as privatizações, e deteriorou a situação financeira”, com o dívida pública a subir para 120% do PIB, o défice orçamental a derrapar para 3% e o investimento público, essencial para o desenvolvimento das infraestruturas, deverá cair este ano.

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