O novo Presidente dos Estados Unidos da América deverá dar mais atenção a África, mas o continente está longe de ser uma prioridade para Joe Biden, deixando o caminho aberto para a China e a Rússia continuarem a aumentar a sua influência no continente.

De acordo com uma análise feita pela NKC African Economics, a filial africana da britânica Oxford Economics, a região prioritária do ponto de vista da nova política externa norte-americana será a Ásia e a Europa, duas regiões que se distanciaram significativamente dos norte-americanos durante a Presidência de Donald Trump.

“Esperamos que o Governo dos EUA se vá focar em fazer marcha-atrás face no isolacionismo imposto por Trump, mas as prioridades internas relativas à covid-19 e à recuperação económica vão limitar a atenção dada ao estrangeiro, e outras regiões merecerão mais atenção do que África”, escrevem os analistas numa análise sobre o impacto da política externa de Biden nos países africanos.

No texto, os analistas dizem que anteveem que os EUA mantenham a presença de cerca de 7 mil militares no continente, podendo até expandi-la se o conflito no Corno de áfrica, no Sahel ou nas regiões circundantes piorar, mas o cenário central da consultora NKC aponta para a presença militar norte-americana ficar-se pelas operações com drones e pela manutenção de um pequeno número de conselheiros, evitando enviar novas tropas para novos cenários de operações.

Na vertente económica, longe vão os tempos em que as trocas comerciais entre os EUA e os países africanos valiam cerca de 120 mil milhões de dólares. Nos últimos dez anos, este valor caiu para 20 mil milhões este ano, sendo certo que em 2020 todos os investimentos em todas as regiões caíram, mas basta olhar para 2019, onde as trocas representaram 60 mil milhões de dólares, para se perceber que o desinvestimento é notório: de 2010 para 2019, o investimento norte-americano caiu para metade.

Não é à toa que tanto se fala da crescente influência da China no continente, e boa parte resulta da ‘saída de cena’ dos EUA, embora seja de assinalar também que o financiamento chinês é francamente mais simples e rápido, essencialmente porque não impõe tantas garantias e constrangimentos como o financiamento ocidental.

Do ponto de vista diplomático, a previsão aponta para um Departamento de Estado “menos intervencionista e mais profissional, ambos bons para África”, escrevem os analistas.

Olhando para as duas maiores economias, a NKC diz que a Nigéria pode sair beneficiada e que a África do Sul deverá perder importância.

“Historicamente, a relação da África do Sul com os EUA não tem sido próxima e há poucas razões para pensar que isso vai mudar”, dizem os analistas, que notam, no entanto, que um dos primeiros telefonemas do Presidente eleito foi para Cyril Ramaphosa, embora o tema da conversa tenha sido mais sobre África do que sobre a África do Sul, eventualmente pelas funções que Ramaphosa ocupa atualmente como líder da União Africana.

A África do Sul, a economia mais industrializada da região, tem perdido influência não só na África Austral, mas também no continente, “e deverá perder ainda mais o estatuto quando Ramaphosa sair da presidência da UA em fevereiro de 2021”, prevê a NKC.

Pelo contrário, a Nigéria, que já ocupa o lugar de maior economia africana, deverá beneficiar da nova Presidência norte-americana, mas só depois de ultrapassados alguns dissabores recentes.

OS EUA têm uma relação histórica próxima com a Nigéria, sendo aliás um dos seus cinco maiores parceiros comerciais, mas as críticas do ministro das Finanças ao presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, o nigeriano Akinwumi Adesina, a recusa em aceitar Ngozi Okonjo-Iweala como a nova diretora-geral da Organização Mundial do Comércio e os comentários críticos contra a atuação do Governo na repressão das manifestações das últimas semanas, conhecidas como #EndSARS, já para não falar da recusa de visto aos nigerianos, terão de ser ultrapassadas antes de se iniciar uma nova era.

Para já, o mundo espera que Joe Biden mostre uma abertura ao diálogo que raramente era vista com Trump, e que o multilateralismo volte a ser o ator principal no palco internacional.

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