Os Encontros da Primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, cuja parte principal terminou esta semana em Washigton, saldaram-se por uma forte corrente de apoio aos países em mais dificuldades para combater a pandemia e para relançar as suas economias, com África a ter um papel central nos debates.

Não foi pelas melhores razões, mas finalmente África, que teve uma recessão de 1,9% no ano passado e deverá crescer 3,4% este ano, teve o destaque que merece nas reuniões da elite financeira mundial, com todos os intervenientes, sem exceção, a prometerem apoio e a finalmente parecerem perceber que enquanto todos não estiverem a salvo da pandemia, ninguém estará a salvo.

Nos últimos dias, o G20, o grupo que reúne as maiores economias mundiais, deu oficialmente a luz verde para o aumento de capital do FMI em 650 mil milhões de dólares, com a economista-chefe do FMI, Gita Gopinah, a dizer que os países menos desenvolvidos, entre os quais se contam muitos africanos, deverão receber à volta de 20 mil milhões de dólares, mas as contas não estão ainda fechadas.

A diretora executiva do FMI, Kristalina Georgieva, foi mais longe e defendeu que os países africanos deviam receber não só a parte que lhes toca em função da quota que detêm no Fundo, mas também ser os destinatários da solidariedade dos países mais ricos, que ficam com a maior parte desta alocação de Direitos Especiais de Saque, através de um mecanismo de empréstimo a baixo custo ou outro similar ainda em estudo.

As verbas, disse, deverão estar disponíveis em meados de agosto, mas já em junho será divulgado o plano concreto de distribuição dos montantes, que, como Mercados Africanos já revelou, deverá ser, no mínimo, de 1700 milhões de dólares para os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

Ficou assim por terra o pedido da secretária executiva da Comissão Económica das Nações Unidas para África, Vera Songwe, que disse que mais do que falar sobre esta alocação, o que era mesmo preciso era libertar já as verbas.

O dinheiro, no entanto, não vai cair do céu e o FMI já avisou que os governos africanos têm muito que trabalhar e reformar para merecer essas verbas, que serão transferidas na forma de reservas para os bancos centrais, o que, desde logo, ajuda a aumentar as Reservas Internacionais Líquidas e promete reduzir fortemente a falta de moeda estrangeira, que leva muitas vezes a depreciações das moedas internas.

Nos Encontros da Primavera, Angola teve, como já vem sendo hábito nas reuniões do FMI, um papel de destaque, com uma conversa a dois entre o próprio presidente do Banco Mundial e a ministra das Finanças, na qual Vera Daves de Sousa disse que a diversificação económica é o caminho para a sustentabilidade económico e revelou que é o próprio governo a dizer aos bancos comerciais para terem calma quando acenam com milhões e milhões para financiar projetos.

Luanda quer financiamento concessional, ou seja, financiamento com taxas de juro abaixo das praticadas pela banca comercial, e quer que o custo do investimento seja feito pelo setor privado, com o Estado a atuar como regulador do mercado, ao contrário do que tinha acontecido nas últimas décadas em Angola.

O tom dos debates, conferências de imprensa e seminários acompanhados durante toda a semana por Mercados Africanos foi marcadamente positivo, embora ninguém esconda os desafios: da dívida pública à distribuição das vacinas, das alterações climatéricas à necessidade de reformas nos países, há muito por fazer no continente, e já.

Mário Baptista

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