“Nós não vamos poupar esforços para garantir um acesso equitativo e suportável para todos os povos”. Foi assim que o grupo das nações mais industrializadas do mundo, o G20, anunciou que pretende cobrir o financiamento necessário para garantir que a vacina contra a covid-19, quando estiver pronta, chegue a todos.

A assunção geral é que ninguém está a salvo enquanto todos não estiverem a salvo, mas tirando esta declaração de intenções, segundo a qual o G20 vai financiar o que falta para garantir o sucesso da iniciativa COVAX, a generalidade das agências internacionais de notícias convergiu que a cimeira do G20, que terminou no domingo em Riade, a capital da Arábia Saudita, não trouxe grandes novidades e mostrou ainda menos ações concretas para impulsionar a atividade económica pós-pandemia.

Não houve avanços sobre a extensão da Iniciativa para a Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI), essencial para os países mais endividados conseguirem financiar a recuperação das economias, e também não houve nenhum desenvolvimento sobre a entrada do setor privado nesta iniciativa lançada em abril pelo G20 com o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), que ainda assim já aliviou 46 países, adiando pagamentos de dívida no valor de 5,7 mil milhões de dólares.

O G20 mantém a ideia de esperar pelas próximas reuniões do FMI e do Banco Mundial, previstas para junho de 2021, para avaliar se prolonga a moratória até final do ano, o que defrauda a expectativa dos países aderentes, que esperavam já uma decisão sobre a manutenção deste mecanismo até final do próximo ano.

A COVAX, o principal mecanismo internacional para a produção e distribuição de vacinas, precisa de 28 mil milhões de dólares de financiamento, dos quais 4.200 milhões são necessários até final do próximo mês, mas sobre isto, em concreto, o G20 não divulgou mais pormenores.

Para o presidente da Agência de Desenvolvimento da União Africana (NEPAD), Paul Kagame, “o financiamento total do COVAX é fundamental para garantir que a vacina estará disponível em todo o lado”.

Numa intervenção no G20, o também presidente do Ruanda alertou que mesmo havendo uma vacina disponível, “é preciso sistemas de saúde fortes para garantir a distribuição” e vincou que “a existência de uma vacina não garante a capacidade dos governos financiarem a recuperação das economias”.

Por isso, acrescentou, “como África não tem os instrumentos de política monetária dos países mais avançados, a DSSI tem uma importância central, mas este programa crucial não será suficiente e são precisos estímulos adicionais não só nas economias mais avançadas, mas também nos países em desenvolvimento, para garantir que ninguém fica para trás”.

O Presidente da França, Emmanuel Macron, concordou: “Precisamos de evitar a todo o custo um cenário de um mundo a duas velocidades, onde só os mais ricos se conseguem proteger contra o vírus e regressar à normalidade”.

 

Trump falou (pouco) e depois foi jogar golfe

Ao longo das 12 páginas do comunicado final, são muitas as referências ao que foi feito durante a presidência saudita, completamente dominada pela pandemia de covid-19, deixando pouco espaço para iniciativas mais estruturantes para além da recuperação da economia e da saúde das quase 60 milhões de pessoas infetadas.

O comunicado do G20 encomenda ao FMI a preparação de uma “análise sobre as necessidades de financiamento externas nos países de baixos rendimentos nos próximos anos e sobre as opções financeiras sustentáveis”, mas não anunciou qualquer acordo para reforçar a robustez financeira do Fundo, seja através de novos Direitos Especiais de Saque (uma espécie de reserva de liquidez), seja através de uma redistribuição dos limites de empréstimos aos membros.

A reunião que juntou os principais líderes mundiais foi também a última para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que segundo os relatos, fez um breve discurso no qual disse que “o Acordo de Paris não foi criado para salvar o meio ambiente, mas sim para matar a economia norte-americana”, e depois foi jogar golfe.

Os restantes líderes ficaram e debateram os grandes temas internacionais, prometendo lutar por “um sistema fiscal globalmente justo, sustentável e moderno” e reiteraram o apoio aos esforços de criação de uma “rede de segurança financeira global mais forte”, com um FMI “forte, baseado nas quotas e com recursos suficientes”.

Defendendo o multilateralismo como sistema prioritário nas relações internacionais e na resolução dos principais problemas mundiais, os países do G20 concordaram que “a ação global coordenada, a solidariedade e a cooperação multilateral são hoje mais necessárias que nunca para superar os atuais desafios e aproveitar as oportunidades do século XXI”.

A reunião deste fim de semana põe fim à presidência da Arábia Saudita, que será substituída, a partir de dezembro, pela Itália, sendo que na reunião deste fim de semana, para além da Espanha, convidada permanente, foram também convidados a Suíça, Jordânia e Singapura, para além dos 20 países com assento permanente: Alemanha, Arábia Saudita, Austrália, Argentina, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, EUA, França, Reino Unido, África do Sul, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, Turquia e a União Europeia.

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