O economista guineense Amadou Ly enviou-nos a seguinte contribuição:

A visita de António Costa, PM de Portugal, à Guiné-Bissau (cancelada) teria tido particular importância, não só pelo facto de não me lembrar da última vez que um PM de Portugal visitou a Guiné-Bissau, mas também pelas implicações políticas, culturais e económicas de tal visita. Não me vou preocupar com os aspetos culturais e políticos, não porque não são importantes (até porque influenciam o económico – afinal, é mais fácil negociar com amigo), mas porque julgo que outras pessoas podem oferecer melhores contribuições nessas áreas. No entanto, devo reconhecer o significado da visita no começo da normalização das relações entre Guiné e Portugal – uma relação que não tem sido fácil. E no aspeto econômico, a sinalização que essa mesma visita tem para os com outros potenciais parceiros econômicos.

Foco a minha contribuição na área económica (comércio externo e investimento direto estrangeiro) porque é a minha especialidade. O comércio /investimento entre Guiné e Portugal tem crescido nos últimos tempos, como resultado da crise económica nos mercados europeus (i.e., crise bancária de 2008/2009). Não foi um favor feito à Guiné-Bissau, mas sim devido à necessidade de diversificação dos mercados por parte dos empresários/investidores portugueses. É difícil, mas não é impossível, para os países pobres beneficiarem de comércio externo. Simplesmente tem que se balancear o nível de abertura face a exterior com o nível de atividade interna. Por exemplo, suponhamos a exportação de frango. Não controlado e monitorado este tipo de exportação de Portugal irá afetar negativamente empresários e pequenos agricultores Guineenses – acabando por minar os objetivos iniciais de melhorar a vida dos Guineenses. Mais, se considerarmos que a “galinha di terra” (frango local) é livre e não é alimentada por ração (“produto orgânico”) tende a ser mais caro que o frango exportado de Portugal, logo a maior dificuldade face à concorrência de baixo preço. O frango criado ao ar livre e alimentado não por ração não é lucrativo exportar para a Guiné, a não ser que haja um subsídio massivo por parte do governo português.

Tal como comércio, o investimento direto estrangeiro raramente favorece os países pobres. Mais, temos que ter em conta que os empresários Guineenses não têm a capacidade financeira das congéneres portuguesas. E como tal, deve-se assegurar no futuro que haja espaço para o crescimento do tecido empresarial Guineense. Como em quase tudo, existe possibilidade de equilíbrio. E é aí que o fator “amigo” pode ajudar a encontrar um bom caminho para todos. Porque investimentos em sectores que só proporcionam renda (e.g., águas, eletricidade, florestas) não são do interesse da Guiné. Mais, traz problemas futuros para ambas as partes, descontentamento por parte dos Guineenses e os empresários arriscam futuros “cash flow”. Interessa à Guiné investimentos que qualifiquem os recursos humanos e adicionem valor à economia. Por exemplo, suponhamos que o governo da Guiné concede a autorização para construção de um “resort” “off limit” para os Guineenses. Tal empreendimento, traz um risco adicional para os investidores, para além do descontentamento da população. Mais não adiciona valor à economia da Guiné, porque importariam todos os produtos que necessitam de Portugal. A maior vantagem de investimento direto estrangeiro é a possibilidade de qualificação de recursos humanos. Um investimento que de facto invista na Guiné e nos trabalhadores Guineenses. É essencial que os investimentos realizados, mesmo que sejam na hotelaria, tenham a possibilidade de uma gestão Guineense (“testas de ferro” não servem a ninguém). Igualmente importante é a possibilidade de esses mesmos hotéis serem fornecidos por produtores locais. Um outro exemplo, suponha como tem sido noticiado noutros países africanos da venda de terrenos para produção de bens para esses países como forma de segurança alimentar. Obviamente, como se deve perceber este tipo de investimento também não é do interesse da Guiné.

Pessoalmente, julgo que a prioridade do governo da Guiné-Bissau deverá ser no sentido aumentar a qualificação dos recursos humanos que nos prepare para as alterações climáticas que se avizinham. Isso quer dizer investimento em universidades técnicas (engenharias, biologias, medicina). Esses investimentos irão garantir o futuro da Guiné e dos Guineenses e estes investimentos podem ser em parceria com Portugal. A isso deve ser associado desincentivos de investimentos que deteriorem o já frágil equilíbrio ecológico (por exemplo, pesca excessiva, caça, desflorestação).

Como referi acima, a visita de António Costa poderia ter sido importante

No entanto, devemos gerir as nossas expectativas em relação ao mesmo. O estabelecimento de relações normais de confiança leva tempo e trabalho. Julgo que a parceria a forjar deve ser de longo prazo, e deve-se resistir a tentação de forçar projetos de curto prazo cujos efeitos negativos irão desincentivar futuros investimentos. Ao mesmo tempo, não devemos descurar o nosso mercado regional. Um dos principais focos do governo da Guiné deve, a meu ver, ser no fortalecimento do mercado da África Ocidental. Este sim irá proporcionar maior poder negocial internacional e a consequente usufruto dos benefícios de trocas exteriores.

Contribuição de Amadu Ly, PhD

Áreas de investigação: Comércio Internacional, investimento Direto Estrangeiro, Fluxo de Informação e Finanças Comportamentais. 

 

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