O antigo secretário de Estado do Comércio e Turismo e antigo embaixador de Cabo Verde em vários países africanos qualificou “de rastos” o atual momento das empresas cabo-verdianas.

Nesta entrevista, Jorge Spencer Lima avalia ainda as medidas do Governo para socorrer as empresas do safanão provocado pela covid-19 e bate numa tecla antiga: a necessidade de diversificação do mercado da economia do país, até agora dependente do turismo.

O líder dos empresários do sul do arquipélago pisca ainda o olho aos mercados internacionais, entendendo que no lusófono ainda é preciso resolver o problema da circulação de pessoas, enquanto vê a CEDEAO como um “trunfo”. Mas avisa: é preciso saber utilizá-lo.

Mercados Africanos (MA): Como é que estão as empresas cabo-verdianas neste momento?

Jorge Spencer Lima (JSL): As empresas cabo-verdianas estão de rastos porque a situação da pandemia afetou a todos. O Governo tomou algumas medidas de combate à pandemia, mas não resolveram o problema como devia ser. Nós continuamos com empresas ainda em situação de lay-off, temos sobretudo no setor do turismo, que é um setor fundamental para o desenvolvimento da economia cabo-verdiana, que atinge cerca de 20% do PIB, está de rastos, está no chão.

Nada funciona neste momento, as empresas estão fechadas e já não estão a aguentar mantendo os trabalhadores em casa, em lay-off, ainda que pagando 35%. Depois de todo esse tempo, sem receitas, sem volume, sem entrada, só tirar, tirar, estão a atingir o seu limite de manter os trabalhadores.

Vamos entrar de certeza numa fase, que é a fase dos despedimentos, na medida em que o sistema como está e como foi concebido já deu tudo o que tinha para dar. As empresas já não conseguem suportar essa carga, essa massa salarial, ainda que seja dos 35%.

Na última prorrogação do lay-off, o Governo abriu a possibilidade de os trabalhadores prestarem serviços, a posição da câmara de comércio, do setor privado, é que se os trabalhadores recebem 70% deviam no mínimo trabalhar 70%, mas o Governo não nos deu ouvidos, fez o que quis, não alterou a sua proposta.

 

MA: Que empresas estão em situação mais difícil?

JSL: As empresas foram todas afetadas. No início foram todas afetadas, mas há umas empresas que o Governo pôs uma série de empecilhos para se ter acesso ao lay-off. Para se ter acesso ao lay-off tinham que ter a situação regularizada em relação ao fisco e à segurança social. E cerca de 30% das empresas ficaram de fora, por não cumprir esses requisitos mínimos para terem acesso ao lay-off.

Mas depois, com o levantamento da quarentena, algumas empresas retomaram o seu trabalho e ficaram de fora do lay-off, mas sente-se que está muito fraco o volume de negócios.

E no que diz respeito às empresas ligadas ao setor do turismo, está tudo fechado, nada funciona, está tudo parado. Sobretudo nas ilhas do Sal e da Boa Vista, onde cerca de 90% do turismo cabo-verdiano está localizado, eram duas ilhas com uma população muito reduzida, que teve que importar mão de obra das outras ilhas para poder satisfazer as necessidades do turismo, com a paragem do turismo, dos hotéis, o grosso desses quadros, dessa mão de obra, voltou às suas ilhas de origem, onde foram engrossar ainda mais o quadro dos desempregados.

 MA: Em toda esta situação, o que destaca como positivo?

JSL: Nesta situação de covid não há nada de positivo. Positivo pode ser a resiliência dos cabo-verdianos em quererem combater, não ficarem de braços cruzados, mas isso não é só em Cabo Verde, é em todas as outras partes do mundo. A covid só trouxe coisas negativas e isto é mau para a economia e para as pessoas. Nós não vislumbramos nada de positivo nesta pandemia em Cabo Verde.

MA: Que tipo de empresas poderão recuperar melhor e continuar a sua atividade depois de tudo isto?

JSL: As empresas, como dizia, são corpos vivos: nascem e morrem. De uma maneira geral haveria sempre empresas que iam fechar, só que a covid acelerou esse processo de encerramento de empresas, os que já estavam previstos e os que não previam essa situação.

Aumentou o risco de encerramento de empresas e o risco de procurar trabalhar. E neste momento são as grandes empresas que estão a safar melhor, não é que estejam num mar de rosas, mas estão melhor. Por terem melhor capacidade financeira para aguentar esse impacto.

As pequenas empresas estão a fechar as portas, não têm como suportar, ainda que o Governo tenha aprovado uma série de linhas de financiamento de apoio às empresas, o problema é que essas mesmas linhas continuam com muitos empecilhos, muitas empresas não puderam aceder a essas linhas de financiamento e estão fechando as portas. E as perspetivas são mesmo sombrias. E não acredito que vão mudar em 2021.

MA: A diversificação do mercado, além do mono produto turismo seria uma alternativa neste momento?

JSL: Nós temos estado a dizer isso mas ninguém nos deu ouvidos. Mas podemos dizer que a vantagem da covid é que, finalmente, o Governo já começa a falar na diversificação do produto da economia cabo-verdiana.

O próprio primeiro-ministro [Ulisses Correia e Silva] já fez uma declaração neste sentido. Acho que não é bom e nós sempre dissemos que é um alto risco fazer a economia de qualquer país depender da cultura do mono produto. Mas sobretudo um produto que nós não controlamos. O produto turismo é volátil.

O turista vem se quer, não está cá dentro, não é uma matéria prima que existe em Cabo Verde e que nós estamos a transformar para produzir e vender. E o turismo muitas vezes depende de questões externas. Não é um produto seguro.

Temos que desenvolver outros setores para que se possa comprar e, junto com o turismo, fazer Cabo Verde desenvolver. Insistimos muito nas pequenas e médias indústrias, que era preciso apoiar. Chegamos a fazer um estudo sobre o desenvolvimento de pequenas e médias indústrias em Cabo Verde, que até mereceu o apoio do Governo, a quem entregamos, mas nunca mais ouvimos falar nele. É o problema que se passa em Cabo Verde.

Passamos a vida a fazer estudos, e mais estudos, e depois acabam na gaveta nos Ministérios. É preciso que alguém assuma. E eu fiquei satisfeito quando ouvi o primeiro-ministro a fazer referência a isso, que o país não pode continuar a viver com base na mono cultura do turismo. Isso já é um grande passo em frente.

MA: O que se tem feito para atrair novos investidores/parceiros internacionais, sobretudo na comunidade lusófona?

JSL: Pouca coisa se tem feito. O problema fundamental da comunidade lusófona é circulação de pessoas e não está resolvido. A confederação empresarial da CPLP já falou muitas vezes sobre isso, parece que há uma vontade ainda durante a presidência de Cabo Verde da CPLP em resolver esse problema, mas de vontade e boas intenções o inferno está cheio. Ainda não vi. O problema ainda não está resolvido.

A comunidade lusófona só será uma comunidade no dia em que se resolver o problema de circulação de pessoas. Os bens não circulam sem pessoas. São pessoas que compram, são pessoas que vendem, são pessoas que falam, são pessoas que contratam. E enquanto as pessoas não puderem circular livremente na comunidade, a comunidade não existe. É uma comunidade de políticos e de política e isso não serve os interesses dos povos da lusofonia.

 MA: E os grupos de países francófonos ou anglófonos seriam alternativas?

JSL: É mais do mesmo. O nosso campo, nosso meio de atuação é a língua. Já existe uma tendência nos nossos países, sobretudo nas camadas mais jovens de procurarem, de dominarem o inglês, porque sem o domínio de línguas estrangeiras não se consegue fazer relações nacionais no domino de negócios a nível internacional.

E neste momento a comunidade anglófona é uma comunidade já fechada, é uma comunidade onde praticamente não temos acesso. Mais depressa Cabo Verde poderia ter aceso à comunidade francófona do que lusófona.

Mas, de qualquer modo, nós somos membros da CEDEAO, onde temos as três línguas representadas: o inglês, francês e o português. E vamos ter que conviver com isso e vamos ter que adaptar as nossas políticas e conviver no quadro da CEDEAO.

Para mim, a CEDEAO é o trunfo que Cabo Verde tem na não, só que é preciso saber utilizar esse trunfo, saber o que fazer para tirar as vantagens inerentes à nossa participação no quadro da CEDEAO. E ainda em Cabo Verde nós não temos sido capazes de fazer isso.

MA: De tudo o que já expos, para quando prevê a recuperação da classe empresarial em Cabo Verde?

JLS: Agora vai ser só em 2022, alguma recuperação. Porque 2021 já está arrastado. E vamos ver que, sobretudo o turismo, é sazonal, a época de inverno já foi embora, pode vir a retomar em abril, se as coisas melhorarem. E sobretudo estamos a ver um recrudescer da pandemia na Europa, que é o nosso principal parceiro e o nosso principal centro emissor de turistas.

As pessoas não vão viajar, não vão sair dos seus países. O turismo é um setor que talvez vai dar os seus passos, os primeiros indicadores de retoma só em abril de 2021, para que possamos ter um inverno, já no final do ano de 2021, com algum aspeto positivo.

Portanto, em 2021 não vai acontecer, mas esperamos que em 2022 as coisas possam melhorar e que se possa falar da tal retoma de atividades normais da economia no pós covid.

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