É o primeiro livro infantil publicado em Nova Iorque a desafiar os estereótipos que condenam meninas e adolescentes vindas de culturas afrodescendentes. 

É uma história bilíngue (espanhol e inglês) que, por meio de palavras simples e situações coloridas, procura oferecer às meninas afro-latinas lições sobre a beleza da diversidade cultural e o orgulho de sua história negra.

Duas tarefas que, para a autora do livro, muitas vezes são difíceis, especialmente agora que os Estados Unidos atravessaram durante a era de Donald Trump situações de violência e discriminação racial intensa e mesmo mortífera.

“Este livro pode ser voltado para crianças, mas, na realidade, é uma iniciação a uma conversa mais ampla sobre a diversidade”, disse a autora Sulma Arzu-Brown, uma emigrante das Honduras que cresceu no famoso bairro de South Bronx, em Nova Iorque, numa entrevista à revista espanhola Efe.

O tema principal dessa história gira em torno da conceção popular de que meninas com cabelos chamados  “encarapinhados”, produto de sua origem de afrodescendente, têm “mau cabelo”.

Expressão usada cotidianamente entre as mulheres das comunidades dominicana e porto-riquenha de Nova Iorque e que, por sua vez, alimenta o enorme negócio, sempre em crescimento do mercado de salões de alisamento ou de colocação de cabelos que pretendem dar a ilusão de que as que os que usam têm cabelos lisos.

Nos bairros de Nova Iorque com grandes comunidades de afro-latinos, como Washington Heights e Spanish Harlem, há dezenas e dezenas desses salões que aos sábados e domingos ficam lotados de mães e filhas a tentar perder e mudar o visual do cabelo “encarapinhado”.

“Este comportamento corresponde a um legado histórico em que tudo o que era afrodescendente não era humano e era muito menos bom”, explica a especialista em estudos do Caribe, Alaí Reyes-Santos, de origem porto-riquenha e professora de Estudos Étnicos e Resolução de Conflitos na Universidade do Oregon, nos Estados Unidos da América.  

A conceção do que é mau é, portanto, transferida para todos os domínios sociais. A mesma Brown confessa que costumava alisar os cabelos, mas que um episódio ocorrido enquanto ela estava com as filhas mudou a sua vida e posteriormente inspirou o livro.

“Um dia a cuidadora das minhas filhas disse-me: “Sulma, tem que alisar o cabelo da menina, porque ela tem o cabelo feio.” 

“Até me senti um pouco envergonhada de olhar para minha filha e ela ficou com uma cara triste ”, conta a autora do livro.

Brown tentou encontrar uma história que ajudasse a explicar à filha que cabelo “encarapinhado” não é nada negativo, mas não conseguiu encontrar uma. 

E foi assim que nasceu “Pelo Malo No Existe” que significa em português “ Não existe mau cabelo”

Embora inicialmente o livro fosse apenas uma ferramenta pessoal, o marido de Brown motivou-a a publicá-lo na plataforma automática da Amazon.

Mais de 5 mil exemplares de “Pelo Malo No Existe” https://www.amazon.co.uk/Bad-Hair-Does-Not-Exist/dp/0988824027?asin=0988824027&revisionId=&format=4&depth=1 já foram vendidos dentro e fora do país.

A autora afirma que o seu sucesso deve-se à clareza da mensagem sobre a diversidade  e a respetiva aceitação. 

Para isso Brown, usou como personagens diferentes meninas afro-latinas em situações do dia-a-dia, como uma avó pintando a neta.

“Não se trata de ser contra o cabelo liso, mas de aprender a reconhecer que existem todos os tipos de beleza e cultura”, acrescenta.

Segundo Reyes-Santos, houve uma revalorização da cultura afrodescendente nos últimos anos, principalmente nos média do audiovisual independente, mas ela admite que o caminho a percorrer ainda é muito longo. 

“Em espaços institucionalizados ainda existe uma rejeição de tudo o que é esteticamente diferente”.

Um debate surgiu há alguns meses na República Dominicana depois que uma menina ter acusado o ministro da Educação do país de lhe ter negado uma bolsa porque ela usava um “afro”.

“Pelo Malo No Existe”, portanto, procura formar meninas a respeitarem a e encontrarem beleza na diversidade. 

Tanto assim que a filha mais velha de Brown, Suleni, desistiu de alisar o cabelo e todos os dias antes de sair, olha-se ao espelho, para retocar o seu “afro”.

Tomás Paquete

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite o seu comentário!
Por favor, digite aqui o seu nome


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.