O 25 de Abril e a criação dos PALOP.

Comemora-se hoje o 25 de Abril, uma data histórica não só para Portugal, pois a “Revolução dos Cravos” pôs fim à ditadura, mas também para os países dos PALOP, pois sem esse momento histórico, a história da independência das “colónias portuguesas” poderia ter sido bem diferente.

A História da colonização portuguesa em África começou a escrever-se há perto de 600 anos com a conquista de Ceuta a 22 de Agosto de 1415 e terminou com a independência de Angola a 11 de Novembro de 1975.

A razão de Angola ter sido o último país africano a ganhar a independência, não foi um acaso, na realidade foi o fechar de um círculo, pois a história da “Revolução dos Cravos” ocorrida a 25 de Abril de 1974, começa-se a escrever com o início da guerra armada em África, mais precisamente em Angola a 4 de Fevereiro de 1961.

 

O princípio do fim

Imagem: © casacomum.org - Documentos Dalila Mateus
Poster de Agostinho Neto (1988 – 1979), 1º Presidente de Angola. Imagem: © casacomum.org / Documentos Dalila Mateus

Portugal foi a primeira Superpotência Global e manteve o controle férreo das suas províncias ultramarinas, durante séculos. Até que um dia, no já longinco ano de 1961, se dá o início da revolução armada em Angola, com o ataque, efectuado pelo Movimento Popular e Libertação de Angola (MPLA), a 4 de Fevereiro, à prisão de São Paulo, em Luanda e a uma esquadra da polícia, onde foram mortos sete polícias.

Pouco tempo depois, no norte de Angola, a União das Populações de Angola (UPA), que se dedicava sobretudo à guerrilha rural, desencadeou vários ataques contra a população. Angola foi assim, a primeira região ultramarina, onde se iniciou a luta armada organizada contra o domínio português.

Este movimento revolucionário em África, começa a ganhar reconhecimento internacional quando sob os auspícios do rei Hassan II, foi realizada a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP).

Esta conferencia surge por iniciativa do MPLA, do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e da Liga de Goa, tendo-se reunido pela primeira vez em Casablanca (Marrocos), de 18 a 20 de Abril de 1961.

O objetivo da conferencia era o de:

“Coordenar os esforços dos movimentos nacionalistas e estabelecer os meios efectivos para iniciar a luta contra o colonialismo português”.

Estimulados pelos eventos em África, em Portugal, no mês de Abril de 1961 (um prenuncio do futuro 25 de Abril), dá-se uma primeira tentativa, falhada, de Golpe de Estado, a “Abrilada”, liderada por Botelho Moniz, o então, ministro da Defesa.

Em Junho de 1961, dá-se outro evento importante para a luta de libertação em África. Foi a fuga de um grupo de 60 estudantes de Angola, Moçambique, Cabo Verde entre outros, cujo objectivo era o de se juntarem à luta de libertação

Esta fuga clandestina mudou o futuro dos futuros países africanos de expressão portuguesa, já que entre estes estudantes estavam futuros presidentes, ministros, generais e médicos que viriam a ter um papel importante na condução do destino dos seus países.

Dos mais célebres estavam os ex-Presidentes de Cabo Verde, Pedro Pires e de Moçambique Joaquim Chissano. A fuga que partiu de Lisboa, Coimbra e Porto, passou por Espanha, França e Alemanha, antes de conseguirem chegar a África.

O caminho em direção ao 25 de Abril continua com o início da luta armada na Guiné-Bissau, a 23 de Janeiro de 1963, com o ataque ao quartel de Tite, no sul do país, seguindo-se o inicio da luta armada em Moçambique, com o ataque a Chai, em Cabo Delgado a 25 de Setembro de 1964.

 

O caminho em direção ao 25 de Abril

Imagem: © Tienstwatrankil
A Fortaleza de São João Baptista de Ajudá.                                                                               Imagem: © Tienstwatrankil

O caminho em direção ao 25 de Abril de 1974, começa com o “desmantelamento” do Império Português, o que leva a que a posição de Portugal começa-se a ficar mais fragilizada a nível internacional.

O que a maior parte das pessoas pensam é que este “desmantelamento” do Império se inicia quando as tropas indianas entram em Goa, Damão e Diu a 18 de Dezembro de 1961, mas assim não foi. Na realidade, o primeiro território ultramarino “a cair” foi em África, em Agosto de 1961, com a Perda de Ajudá, ocupada pelo Daomé (actual Benim), tendo Portugal apenas reconhecido o facto depois do 25 de Abril de 1975.

Ajudá era uma das colónias mais pequenas do mundo, com apenas 4,5 hectares de território. Na realidade, era apenas uma fortaleza, a Fortaleza de São João Baptista de Ajudá fundada em 1680 pelos portugueses e que serviu, sobretudo, como entreposto comercial.

Com o início da perda das províncias ultramarinas e o intensificar das campanhas armadas em África, o descontentamento entre os militares começa a subir e as sementes da revolução começam a florescer.

Com a perda do Forte de S. João Baptista de Ajudá, uma fortificação que representava a presença histórica portuguesa em África, muitos militares acreditaram que a ditadura Salazarista estava no fim. Esse facto, leva a que o general Humberto Delgado que se encontrava no exilio, regressasse clandestinamente a Portugal, com a intenção de comandar um golpe de estado que tinha preparado.

Na passagem de ano de 1961 para 1962, João Varela Gomes avança para Beja para, juntamente com outros companheiros, assaltar o Regimento de Infantaria N.º 3. O assalto ao quartel deveria ter sido comandado por Humberto Delgado, mas tal não aconteceu e a revolta que ficou conhecida por “Intentona do RI3” fracassou.

No entanto, ainda hoje, muita gente acredita, que o 25 de Abril, poderia ter começado com esta tentativa de golpe de estado. Em 1987, Mário Soares, por ocasião da presidência aberta “Alentejo verde”, quando chegou a Beja, disse:

“Se não fosse um tal de major Calapez, o 25 de Abril teria acontecido 15 anos antes”.

No início de Julho de 1970, no termo da “Conferência Internacional de Solidariedade com os Povos das Colónias Portuguesas” que decorreu em Roma, o Papa Paulo VI recebeu os dirigentes do MPLA, PAIGC e FRELIMO, mais precisamente, Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos, enfraquecendo ainda mais a posição de Portugal.

Em março de 1971, ensaia-se novamente o futuro 25 de Abril, quando a Ação Revolucionária Armada (ARA), braço militar do Partido Comunista Português (PCP), liderado por Álvaro Cunhal, destruiu 16 helicópteros e 11 aviões na Base Aérea de Tancos, seguindo-se em Outubro do mesmo ano um atentado contra o Comando Ibero-Atlântico da NATO (COMIBERLANT) em Oeiras.

Numa resolução aprovada a 14 de Novembro de 1972, a Assembleia Geral da ONU reconhece a legitimidade da luta armada em África contra Portugal, onde afirmam:

“Os movimentos de libertação nacional de Angola, da Guiné-Bissau, Cabo Verde e de Moçambique são os representantes autênticos das verdadeiras aspirações dos povos destes territórios”.

Entretanto a guerra em Moçambique começa a tomar proporções “incomodas”. Os massacres de Chawola, Wiriyamu e Juwau, ganham cobertura internacional e ficam para a História como três dos massacres mais graves ocorridos durante a guerra. Estes massacres, fazem subir ainda mais o descontentamento dos militares que não se reviam naquela guerra.

Imagem: © DR
Amílcar Cabral (1924 – 1973)                                                                                                                  Imagem: © DR

A 20 de Janeiro de 1973, o líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Amílcar Cabral é assassinado em Conakry, o que leva o movimento a receber mais apoio internacional, nomeadamente ao receberem armas que levaram a que ganhassem maior supremacia no terreno.

As armas em questão foram mísseis terra-ar do tipo SAM-7 (os famosos Strella) o que lhe permitiu abater aviões, enfraquecendo, dessa forma, a Forcas Aéreas Portuguesa, reduzindo a proteção dos soldados portugueses no terreno.

Munidos com este novo armamento, o PAIGC, controlou todo o território nacional, à excepção de Bissau, a capital, mas foi o suficiente para, a 24 de Dezembro de 1973, proclamarem a independência unilateral nas matas de Madina de Boé.

O novo estado foi imediatamente reconhecido internacionalmente por muitos países e, a 2 de Novembro de 1973, a Assembleia Geral da ONU saúda a independência numa votação que teve 93 votos a favor, 30 abstenções e apenas sete votos contra (Portugal, Brasil, Espanha, África do Sul, EUA, Grã-Bretanha e Grécia).

Anteriormente, mais precisamente a 9 de Setembro de 1973, o descontentamento crescente com a guerra, leva, numa reunião clandestina, no Monte Sobral (Alcáçovas) à fundação do Movimento dos Capitães, que daria origem ao Movimento das Forças Armadas (MFA), o movimento que esteve por detrás da “Revolução dos Cravos” que viria a acontecer a 25 de Abril de 1974.

Também em Setembro, dá-se a primeira reunião importante entre o Partido Comunista Português (PCP) e o Partido Socialista (PS) em que em um comunicado conjunto, declaram:

“É necessário liquidar a ditadura fascista para se por termo à guerra colonial, conquistar as liberdades democráticas e iniciar negociações com vista à independência completa e imediata dos povos de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique”.

 

25 de abril de 1974, a “Revolução dos Cravos”

Imagem: © DR
Salgueiro Maia, durante o 25 de Abril.                                                                                                      Imagem: © DR

A 25 de abril de 1974, um golpe de Estado conduzido pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), depõe o regime do Estado Novo, a mais antiga ditadura europeia, no poder desde 1933.

A população apesar dos pedidos radiofónicos para ficar em casa, estimulada pelas células organizadas do PCP, sai massivamente às ruas e adere ao golpe. Por exigência de Marcello Caetano que se recusa a entregar o poder a “um simples capitão” é chamado o general António de Spínola que passa a presidir a Junta de Salvação Nacional.

A 15 de Maio, o general Spínola é nomeado Presidente da República de Portugal e Adelino da Palma Carlos assume o cargo de primeiro-ministro. Spínola defende que o destino do Ultramar teria de ser decidido “por todos aqueles que chamam e chamaram aquela terra sua”, abrindo assim, caminho para a independência das então províncias ultramarinas.

 

Conclusão

A luta nas colónias, sobretudo em Moçambique e na Guiné-Bissau, criou o Movimento dos Capitães que depois veio a culminar com o 25 de Abril, mas apesar de vários receios entre os movimentos de libertação, e não só, de que o general Spínola estivesse interessado num formato “neocolonial”, o Movimento dos Capitães conseguiu vingar.

Graças ao MFA e ao 25 de Abril, foram criadas as bases que levaram à independência das antigas províncias ultramarinas e, subsequentemente, à criação dos PALOP.

 

O que achas do 25 de Abril? Concordas que foi importante para a independência das províncias ultramarinas e para a criação dos PALOP? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

Imagem: © casacomum.org / Documentos de Amílcar Cabral 

  • Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos. neste momento exerce as funções de Chefe de Redação da Mercados Africanos.

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