A pandemia que afetou o mundo em 2020 teve impactos severos em Cabo Verde, na vertente turística, que praticamente desapareceu desde março, mergulhando o arquipélago numa crise económica sem precedentes, levando o ministro das Finanças, Olavo Correia, a assumir, sobre o Orçamento do Estado: “Pifou”. É que sem receitas do turismo, Cabo Verde poderá perder mais 10% do PIB que levará vários anos a recuperar. Com cerca de 12.000 casos positivos, a covid-19 provocou pouco mais de 100 óbitos por complicações associadas à doença no arquipélago.

O pesadelo começou em 19 de março, com a confirmação oficial de um turista inglês de 62 anos infetado na ilha da Boa Vista com o novo coronavírus, que dias depois acabaria por morrer. Foi também o início da paragem total do arquipélago: Os voos comerciais internacionais ficaram suspensos, para conter a pandemia, até 12 de outubro. Com isso, o turismo, que garante 25% do Produto Interno Bruto (PIB), desapareceu.

Pouco mais de 300 mil turistas é expectativa para este ano, essencialmente do primeiro trimestre, muito longe do recorde histórico de 819 mil em 2019. Com isso, a procura turística por Cabo Verde recua 15 anos em 2020, perdendo meio milhão de turistas num ano. As consequências não se fizeram esperar e apenas o aumento da dívida pública, que já vai em cerca de 145% do PIB, os donativos e ajudas orçamentais atribuídas por vários países que continuam a aumentar e os financiamentos contraídos junto de entidades globais, como Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial, permitiram minimizar as consequências. Ainda assim, o desemprego deverá duplicar em 2020, atingindo os 20%.

Cabo Verde fez ainda os destaques na imprensa internacional quando, em 12 de junho, durante uma escala para reabastecimento na ilha do Sal, cumpriu um mandado internacional de detenção emitido pelos Estados unidos e entrou na disputa internacional entre o regime de Nicolás Maduro e o Governo norte-americano. Nesse dia, enquanto viajava como “Enviado Especial” da Venezuela, com passaporte diplomático, o empresário colombiano Alex Saab, considerado pelos EUA como “testa-de-ferro” de Maduro foi detido pelas autoridades cabo-verdianas e pela Interpol a pedido da Justiça norte-americana, que depois pediu a sua extradição.

O tribunal da Relação do Barlavento, na ilha de São Vicente, autorizou a extradição em julho, mas a defesa de Saab, liderada pelo mediático antigo juiz espanhol Baltasar Garçón, recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça e para várias entidades internacionais. A defesa diz mesmo que Cabo Verde está a ceder à “pressão” dos Estados Unidos, “novela” em que o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, disse não querer entrar, salvaguardando a independência dos tribunais do poder político. Sem qualquer decisão final até ao momento, Alex Saab permanece detido em Cabo Verde, com o Governo da Venezuela a acusar Cabo Verde de violar as “normas internacionais”, tal como as “ações de agressão e cerco contra o povo venezuelano, empreendidas pelo Governo dos Estados Unidos da América”.

No plano interno, já sofrendo os efeitos de uma profunda crise económica, Cabo Verde foi a votos em 25 de outubro, sem receios da pandemia, para escolher pela sexta vez os autarcas dos 22 municípios do arquipélago.  O Movimento para a Democracia (MpD), que assumiu o Governo cabo-verdiano em 2016, confirmou a liderança no poder local, ao garantir 14 câmaras. Um resultado aparentemente positivo, não tivesse o partido perdido terreno, face às 18 conquistadas nas eleições municipais anteriores. Além disso viu a oposição direta crescer, com o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) a passar de duas para oito câmaras. E quando poucos esperava, conquistou mesmo o poder na Câmara da Praia ao MpD, deixando antever uma forte disputa pelo poder nas legislativas do primeiro trimestre de 2021 entre MpD (maioria) e PAICV (oposição).

Num ano difícil para a nação crioula, numa única semana de dezembro o país foi ainda marcado pela morte de figuras nacionais. Desde logo Celina Pereira, uma das maiores referências da música de Cabo Verde, mas também o intelectual e historiador Moacyr Rodrigues, um dos ‘alicerces’ da candidatura que terminou com a proclamação pela UNESCO da morna como património imaterial da humanidade.

Contudo, nem tudo foram más notícias e após três anos de seca, a chuva que caiu sobre várias ilhas de julho a outubro deu algum alívio à agricultura. Apesar desta esperança, as autoridades cabo-verdianas mantiveram a aposta em fontes alternativas de água, desde logo o tratamento da água do mar para o uso na agricultura, projeto que contará com o apoio financeiro da Hungria, no valor de 35 milhões de euros e que foi fechado já em dezembro.

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