São 203 páginas de números, recomendações e conselhos, mostrando o estado da arte da economia africana durante o último ano e já olhando para 2021.

O Relatório Económico sobre África, lançado esta semana pela Comissão Económica da ONU para África (ECA), coloca o crescimento económico do próximo ano em 5% depois da contração neste ano devido à pandemia e alerta que tudo depende da evolução da doença não só no continente, mas também nos mercados recetores das exportações africanas.

África é a segunda região com um crescimento mais rápido no mundo, tendo vistas as suas economias expandirem-se, em média, 3,4% no ano passado. Claro que este ano é diferente, o valor é negativo em cerca de 4%, mas mais do que lamentar a recessão, é preciso olhar em frente.

“O crescimento em África deve ressaltar para 5% em 2021, apoiado pela implementação das medidas de resposta à covid-19 e à recuperação económica mundial”, diz o relatório, que estima que as perdas só em matérias-primas fósseis cheguem, no mínimo, a 65 mil milhões de dólares devido à queda do preço do petróleo e ao abrandamento da procura mundial.

O petróleo, claro, representa 40% das exportações e vale mais de 7% do PIB africano, pelo que a queda dos preços em mais de dois terços este ano teve um impacto dramático para o continente. Que o diga a Nigéria, que entrou em recessão por causa disso, ou Angola, o segundo maior produtor da África subsaariana e uma das economias mais dependentes da exportação de crude para equilibrar o orçamento, que viu a economia continuar em queda e todo o programa de reformar praticamente suspenso devido às más condições dos mercados.

África é um continente particularmente vulnerável aos efeitos da pandemia, não só pela dificuldade dos trabalhadores informais em trabalharem de casa, como pelos frágeis sistemas de saúde – basta comparar as 1,8 camas disponíveis para cada mil habitantes africanos com as 6 em França ou as 8,2 camas na Rússia para se perceber a diferença.

Junte-se a isto as necessidades financeiras do continente, que precisa de 44 mil milhões de dólares “para equipamento de proteção pessoal, tratamento de doentes com covid-19 e testes”, diz a ECA, que acrescenta a estas necessidades mais 130 a 170 mil milhões de dólares por ano para financiar as infraestruturas necessárias para alavancar o desenvolvimento.

É por causa destes e de outros números que o título do relatório deste ano é sobre o ‘financiamento inovador para o desenvolvimento do setor privado em África’. A razão é simples: os Estados não têm capital disponível para financiar a criação de infraestruturas, recuperar as economias e lançar as bases da diversificação económica que é essencial para garantir um desenvolvimento sustentável.

Logo na apresentação do relatório, a diretora executiva da ECA, Vera Songwe, mostrou-se esperançada que o documento mostre aos agentes económicos, particularmente neste tempo de pandemia, a importância de olhar para o financiamento e para ferramentas inovadoras que permitam alavancar as infraestruturas, a agricultura e a digitalização do continente.

As recomendações são genéricas e têm depois de ser implementadas país a país consoantes as necessidades, mas, de um forma geral, a ECA defende a regulação do setor financeiro e da banca, a criação de estabilidade financeira através de políticas públicas eficazes e a promoção de financiamento inovador por parte do setor privado.

Para além disso, os economistas da ECA dizem também que os países africanos devem implementar a Estratégia Digital de Transformação e usar o acordo de comércio livre (ZCLCA) para fomentar o comércio e desenvolver a economia, adotando políticas e legislação que favoreçam o ambiente empresarial e o investimento externo.

Trabalho, como se vê, não falta para os políticos africanos. E conselhos sobre as melhores práticas também não. Agora é ‘só’ fazer.

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