O dinheiro já não abunda em Cabo Verde e não estica para poupar, muito menos para grandes investimentos. Poucos o conseguem fazer e já há pessoas, iniciativas, empresas e instituições que estão a ensinar os cabo-verdianos a conjugar o verbo poupar na primeira pessoa, sobretudo em tempos complicados por causa da pandemia do novo coronavírus, em que a educação financeira se torna mais importante para o planeamento a curto, médio e longo prazo.

Aos 41 anos, Juliana Fernandes é desde 2016 o “caixa” de um grupo de 24 pessoas da cidade da Praia que jogam o denominado totocaixa, uma prática bastante comum em Cabo Verde, em que todos os elementos contribuem semanalmente, neste caso com 2.500 escudos, e o valor arrecado é entregue à vez a um dos elementos, chegando a 60 mil escudos semanais.

“Como todos os dias temos esse dinheiro em mãos, juntamos e criámos o totocaixa”, disse Juliana Fernandes, moradora no bairro de Tira Chapéu, dona de um salão de beleza e uma das 22 mulheres do grupo, que começou com cinco pessoas e foi aumentando até chegar aos 34 membros, o que dava 85 mil escudos por semana.

Com recursos ganhos muitas vezes de forma informal, a praiense é de opinião que quando assim é o “dinheiro ganho todos os dias pode ser gasto todos os dias”, já que muita gente não consegue ir ao banco para fazer o depósito e perde o controlo do seu dinheiro. Mas o totocaixa ajuda a fazer planos, tanto assim é que Juliana já mobilou a casa e fez algumas viagens internacionais quando é a vez dela a ficar com os 60 mil escudos.

Contudo, a pandemia do novo coronavírus – 8.500 casos acumulados e quase cem mortos desde 19 de março – apanhou a todos de surpresa e inclusive 10 pessoas não estavam a conseguir o valor semanal e acabaram por sair do grupo, que é baseado na confiança, compromisso e conhecimento entre os seus membros. “Dá mesmo para poupar. É um dinheiro que estás a guardar, sem juros, não contas com ele durante algum tempo, mas quando é a tua vez, é um bom dinheiro”, disse. Além disso, o totocaixa evita também a tentação de gastar no dia a dia em coisas não essenciais.

Se a Juliana Fernandes encontrou uma forma de poupar e de fazer algum investimento, o mesmo não se pode dizer a Fátima Lopes Semedo, vendedora de frutas, verduras e legumes há quase cinco anos mercado do vizinho bairro da Terra Branca. E à primeira abordagem sobre a poupança, esta vendedora começa logo a apontar o quão difícil é poupar algum dinheiro, quando as vendas não são assim tanto.

E para a gravar ainda mais a situação, veio a pandemia do novo coronavírus, que obrigou a todas a fechar os cestos de frutas mais cedo durante a semana, a vender até às 13:00 aos sábados e a não abrir a banca aos domingos, num mercado na rotunda do mesmo bairro. “Não temos como fazer economias. Quando fechamos o negócio, vários produtos estragam. Temos que comer, pagar luz, água. Às vezes nem dá para todas as despesas”, lamentou esta vendedora informal.

Antes da pandemia, Fátima Semedo disse que até dava para poupar algum dinheiro, mesmo que pouco e para as despesas correntes, mas que agora é mais difícil. “As pessoas nos vêm aqui pensam que temos muito rendimento, mas não. É preciso muito esforço”, prosseguiu, enquanto atende uma cliente, que pergunta preços de banana, maçã, laranja, ameixa, entre outras frutas frescas mesmo junto ao passeio do mercado de Terra Branca.

Banco de Cabo Verde pede poupança

De 26 a 31 de outubro, o Banco de Cabo Verde (BCV) organizou a “Semana da Poupança”, em parceria com várias outras instituições, para, entre outros objetivos, sensibilizar a população sobre a importância da poupança e da educação financeira, um tema ainda recente e em fase incipiente em Cabo Verde. A opinião é de Helton Carvalho, coordenador do Gabinete de Supervisão Comportamental do regulador cabo-verdiano, que diz que as pessoas com negócios informais são as que têm mais dificuldade em fazer poupanças. “Se não souberem separar as finanças do negócio e as finanças pessoais. Para que a poupança seja possível, é fundamental que haja essa separação, além do rigor e disciplina na gestão de ambos orçamentos (o doméstico e o empresarial)”, disse o responsável.

Helton Carvalho destacou as várias iniciativas de educação financeira promovidas por diversas entidades no país, incluindo o BCV, e fez o diagnóstico: a melhoria do planeamento financeiro dos cabo-verdianos reside na mudança de comportamentos e atitudes de consumo e de gestão dos seus recursos financeiros. Por agora, essa mudança ainda é incipiente, mas Carvalho está esperançoso que a melhoria dos comportamentos financeiros será mais visível a médio e longo prazo em Cabo Verde, mediante a implementação de iniciativas de educação financeira.

Com a pandemia da covid-19, o coordenador do Gabinete de Supervisão Comportamental do BCV considerou ser de “extrema importância” a promoção da educação financeira junto da população, para que se possa amenizar os efeitos da crise sanitária.

“No sentido de os indivíduos e famílias planificarem e organizarem melhor a sua vida financeira, principalmente através da poupança, da redução ou eliminação de despesas que não sejam essenciais ou ainda pelo adiamento de determinados projetos ou compromissos financeiros”.

Estudo diz que cabo-verdianos reconhecem importância… mas não poupam

Há cinco anos, o BCV realizou um inquérito à literacia financeira da população adulta ativa no país, o único conhecido até hoje, e as conclusões são esclarecedores. Cerca de 91% dos inquiridos consideram importante, ou, até mesmo muito importante planear o orçamento familiar e apenas 9% consideram pouco importante ou nada importante.

No entanto, cerca 55% planeiam com uma periodicidade mensal, 45% costuma poupar e destes 1 a 2% o faz numa perspetiva de longo prazo, cerca de 53% afirmam que não poupam, destes, 82% aponta como principal razão o baixo nível de rendimento, enquanto que 6% não consideram a poupança como uma prioridade.

E no segundo trimestre deste ano, o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) realizou um inquérito de conjuntura das famílias cabo-verdianas, chegando a conclusão que a maior parte dos inquiridos (93,2%) considerou que a atual situação económica do país não permite poupar dinheiro.

Além disso, 80,6% afirma ter a “certeza absoluta” que não comprará um carro nos próximos dois anos e 73,1% afirma que não construirá ou comprará um imóvel nos próximos 24 meses. E uma fraca percentagem dos inquiridos (3,3%) afirmou que, “provavelmente sim” irá comprar um carro nos próximos dois anos e 15,8% afirmaram que “provavelmente não” vão fazer esse investimento nesse período.

Quanto à intenção de comprar ou construir uma casa nos próximos dois anos, os inquiridos, na sua maioria (73,1%), são de opinião de que não pretendem comprar nem construir uma casa (contra 50,8% registado no período homólogo). Cerca de 14% dos inquiridos afirmaram, que provavelmente sim, irão construir ou comprar uma casa (contra 22% no período homólogo) representando, uma diminuição de 8,0 pontos percentuais.

Retrato do país:

Depois de uma recessão histórica, entre 6,8% e 8,5% este ano, desde logo influenciada pela quebra do turismo, praticamente inexistente desde março, apesar de garantir 25% do Produto Interno Bruto (PIB), o Governo prevê para 2021 um crescimento económico de 4,5%, mas só se o país conseguir controlar a pandemia e se verificar um desconfinamento em todo o mundo.

Até final do ano, o executivo liderado por Ulisses Correia e Silva espera que a taxa de desemprego duplique, devido à pandemia, para 19,2%, descendo ligeiramente em 2021, para 17,2%.

Para o próximo ano económico, o Governo cabo-verdiano prevê ainda uma inflação de 1,2%, défice orçamental de 8,8% e uma dívida pública de 145,9% do PIB.

Poupança no banco cresce

As poupanças dos cabo-verdianos nos bancos atingiram em agosto um novo máximo, crescendo 0,5% no espaço de um mês e mais de 7% desde o início da pandemia de covid-19, segundo dados do Banco de Cabo Verde (BCV).

Segundo o banco central, os depósitos de poupança nos bancos cabo-verdianos ultrapassaram no final de agosto os 7.366 milhões de escudos, renovando máximos históricos.

Representa um aumento de 14,3% face ao valor de agosto de 2019, quando os bancos cabo-verdianos tinham depósitos de poupança no valor de 6.418 milhões de escudos (58 milhões de euros), e um crescimento de 7,2% desde março, quando o país decretou o estado de emergência, com o confinamento da população e paralisação das empresas, para conter a transmissão da pandemia de covid-19.

Em março, esses depósitos de poupança ascendiam a 6.847 milhões de escudos (62,3 milhões de euros).

Em Cabo Verde operam sete bancos comerciais com licença para trabalhar com clientes residentes e quatro apenas com licença para clientes não residentes, considerados ‘offshore’, regime que termina no final deste ano, conforme prevê a nova legislação aprovada em fevereiro, no parlamento.

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