Os economistas, analistas, académicos e governantes que participaram na Conferência Económica Africana (CEA) esta semana convergiram na ideia de que a pandemia de covid-19 oferece uma oportunidade para os países africanos apostarem num novo modelo de desenvolvimento, mais tecnológico, mais sustentável e que use as vantagens do acordo de livre comércio no continente.

Foram três dias de sessões contínuas em que participaram, entre outros, a presidente da Etiópia, vários responsáveis de topo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento e outros dirigentes desta multilateral, e muitos analistas e académicos.

A linha geral das intervenções pode ser resumida na necessidade de o continente reabrir as economias e redefinir as políticas para resolver os eternos gargalos que dificultam o crescimento. Isto não se faz, claro, de um dia para o outro, mas os participantes insistiram na necessidade de aproveitar o momento, as oportunidades e usar as principais vantagens competitivas que o continente tem relativamente a outras regiões: abundantes recursos naturais, trunfo demográfico e oportunidades para o setor privado.

“Apesar de estar a ser um enorme desafio, a Covid-19 deu a África uma oportunidade para repensar o paradigma do desenvolvimento, reimaginar o futuro e reposicionar-se para acolher o setor privado e mudar a maneira como usamos a tecnologia”, disse o economista-chefe e diretor de Estratégia para África no PNUD.

“Há demasiado tempo que vemos o setor privado e o setor público a trabalharem em direções opostas, e há agora uma enorme oportunidade para trabalharem mais de perto”, lamentou Raymong Gilpin numa das múltiplas sessões que decorreram em formato virtual a partir de Abidjan, a capital da Costa do Marfim.

Nada se faz usando apenas os recursos dos Estados, debilitados com a necessidade de aumentar a despesa pública para combater a pandemia e relançar a economia e, por outro lado, confrontados com uma descida da receita por via do abrandamento da atividade económica.

O presidente do BAD sabe-o bem. Numa das sessões, “meteu o dedo na ferida” e disse que sem o apoio internacional, principalmente na saúde, nas finanças e emprego, África não vai conseguir recuperar de forma adequada.

Na mesma linha, a diretora de Política Macroeconómica no BAD, a egípcia Hanan Morsy, defendeu que “não pode haver esforços individuais, um esforço concertado é necessário, temos de usar as nossas boas ideias e as boas resoluções e transformá-las em ações concretas, porque os países africanos só têm a ganhar se não trabalharem em cubículos isolados, mas antes enfrentarem as dificuldades em conjunto”.

Logo na abertura da conferência, a secretária executiva da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), Vera Swonge, criticou o sistema de cooperação a nível mundial, lamentando que a falta de parcerias e solidariedade internacional impeça que a ajuda flua mais livremente.

“Pedimos 100 mil milhões de dólares todos os anos nos próximos três anos, mas tiveram de ser os chefes de Estado africanos a garantir quase 50 mil milhões de dólares porque este sistema multilateral enfraquecido em que vivemos não permitiu que fosse possível arranjar mais”, lamentou a economista dos Camarões.

Entre os vários números lançados durante a Conferência, talvez nenhum espelhe melhor as dificuldades do que o valor lançado pela diretora regional do PNUD, Ahunna Eziakonwa: “uma queda de 5% no PIB per capita implica um aumento de 75 milhões de pessoas em situação de pobreza, o que faz regredir a taxa de pobreza no continente para os níveis de 2011”.

Uma década perdida, avisou a economista, que pode ser contrariada se os governos apostarem na solidariedade internacional, industrialização, novo contrato social, mais proteção social e aprofundamento da digitalização no desenho das políticas económicas de recuperação para o mundo a seguir pós-Covid-19.

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