Entrevista Exclusiva a Jan Friederich, diretor da Fitch Ratings para a África subsaariana.

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Políticas vão definir o futuro de África, não a pandemia

O diretor da Fitch para os ‘ratings’ da África subsaariana avisa, em entrevista exclusiva ao Mercados Africanos, que depois da razia do ano passado, este ano a evolução das economias vão depender mais das políticas do que da pandemia.

“O que vemos agora é uma diferenciação” da análise que a Fitch Ratings faz da robustez das economias africanas e das políticas escolhidas pelos governos, ao contrário do ano passado, em que a maioria dos países analisados teve o seu rating piorado por causa da pandemia.

“O ano passado houve um grande choque, a pandemia, que atingiu toda a gente, não no mesmo grau, mas houve um grande choque negativo, e a direção dos ratings só podia ser negativa”, explicou Jan Friederich em entrevista ao Mercados Africanos a partir de Hong Kong, região onde a Fitch Ratings baseia a análise da África subsaariana.

“Este ano vemos países em que o choque até foi menor do que o previamente estimado, e o crescimento acabou por ser mais alto do que o que temíamos, mas por outro lado há países que ainda estão a absorver os choques e o nível de dívida, e esses são os países que vamos olhar mais de perto, porque é importante ver até que ponto são capazes de lidar com as pressões de financiamento que resultam da crise”, disse o chefe dos analistas de África.

A Fitch Ratings analisa 19 países na África subsaariana, e no ano passado desceu o rating de 15 destes países, por causa do impacto brutal da pandemia nas economias, principalmente as dos países exportadores de matérias-primas e os dependentes do turismo, que secou com as medidas de confinamento.

Para este ano, “ainda há outlooks [análises sobre a perspetiva de evolução das economias] mais negativos do que positivos, por isso a direção da região como um todo ainda apresenta riscos negativos, mas agora já não é só uma direção”, explica, notando até que já houve melhorias dos ratings, como aconteceu no caso do Gabão e da Costa do Marfim.

“Não é de excluir que haja mais, o Benim tem um ‘outlook’ positivo”, exemplificou na conversa com Mercados Africanos.

A sustentabilidade da dívida, mais do que as novas vagas da pandemia que inevitavelmente vão abater-se sobre o continente, é a principal ameaça ao crescimento porque há maior pressão para a consolidação orçamental, e isso é incompatível com o nível de despesa necessário para estimular as empresas, relançando as economias.

“Uma nova onda da pandemia que afeta de forma significativa a economia não está nas nossas previsões, porque com cada vaga há mais capacidade de adaptação dos agentes económicos e porque as medidas dos governos são mais certeiras, toda a gente habitou-se a operar num contexto de pandemia”, concluiu.

Recessão mais suave, recuperação mais lenta

As economias da África subsaariana caíram 1,9% no ano passado, de acordo com os dados do Fundo Monetário Internacional, que estima para este ano uma recuperação de quase 3,5%.

“É notório que o crescimento na região caiu menos do que noutras regiões a nível global, parcialmente porque o impacto foi menor, mas também porque houve menos medidas de contenção e isso ajudou as economias a manterem um nível significativo de atividade económica”, lembra Jan Friederich, dando depois as más notícias.

Tal como caiu menos no ano passado, África também vai crescer menos do que outras regiões este ano: “Estamos a assistir a uma recuperação mais fraca que noutras regiões, o que reflete essencialmente o efeito base menor e a menor capacidade dos Estados para imprimirem estímulos fiscais, orçamentais e monetários que as outras zonas do mundo”, nas quais estas ajudas das autoridades políticas e monetárias são mais importantes para a recuperação dessas economias mais avançadas.

Questionado sobre se os Direitos Especiais de Saque emitidos pelo FMI, que reservam cerca de 33 mil milhões de dólares para os países da África subsaariana, serão determinantes na recuperação, o analista da Fitch Ratings relativiza, lembrando que valem apenas 1,4% do PIB da região, e são muito inferiores às necessidades de financiamento ou até aos défices orçamentais médios e, por outro lado, estão apenas 0,3 pontos acima da ajuda dada pelo FMI durante a crise financeira mundial de 2009.

“A nível geral, o impacto dos DES é limitado, mas dá uma liquidez adicional e ajuda os governos a gastarem dinheiro nas vacinas e nas medidas de ajuda à saúde pública”, responde o analista, apontando que a Zâmbia, o primeiro país africano a entrar em “default “(não ter pago uma prestação da dívida) a seguir à pandemia, é, proporcionalmente ao PIB, o país africano mais ajudado pelos DES, emitidos em função da quota que cada país tem no FMI.

O panorama, portanto, não é propriamente otimista, mas é reconfortante saber que serão as políticas, e não o número de infetados com covid-19, a determinar a evolução dos ratings, porque isso significa que a recuperação económica está nas mãos das políticas, e não de um vírus.

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