Rússia/Ocidente, a mesma medida, duas bitolas.

Antes que as “bitolas” dos leitores comecem a ferver, devo esclarecer que a política de Mercados Africanos é a de claro repúdio contra a invasão da Ucrânia e a posição da Rússia e de Putin nesta guerra fratricida. No entanto…

A realidade é que se tem ouvido muitas mentiras de ambos os lados para justificar esta guerra que, mais uma vez, também veio mostrar que até na solidariedade, existem duas bitolas.

Na minha terra (Angola), existe um ditado sui generis que se aplica perfeitamente a esta situação:

“Se quem te agredir for um branco, não apresentes queixa a um branco”.

À primeira vista pode parecer um ditado racista, mas nada tem a ver com raça, mas sim com uma evidencia que salta à vista. A cor da pele. É obvio que quando os “brancos” chegaram a Angola, só lá encontraram “pretos”, portanto, para os nacionais, esta distinção era marcante e evidente não tendo nada a ver com os conceitos actuais de racismo.

Nessa altura, era claro a um nacional, que se “os brancos” batessem “num preto” não valia a pena irem-se queixar do ocorrido aos “invasores” pois estes tinham a mesma cor de pele que os “agressores”, logo iriam defender os agressores, independentemente de quem tinha a razão ou não.

E é exactamente isso que se passa aqui nesta guerra Russia/Ucrânia. Pode não ter a ver com a cor da pele, mas tem a ver com a dicotomia Leste/Ocidente e quem pensa que ela desapareceu com o fim da “guerra fria”, está muito enganado, pois ela continua bem viva.

 

A NATO

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) foi criada pelos Estados Unidos em 1949, supostamente para impedir que voltasse a surgir uma guerra na Europa, como a das duas últimas grandes guerras, mas como era preciso haver “um bicho papão” do qual se deveriam defender, o derradeiro objetivo seria o de “combater”, a então, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Após o fim da Guerra Fria em 1989 e a dissolução da URSS, a NATO perdeu o sentido de existir, pelo que a lógica apontava para que a mesma fosse dissolvida. No entanto aconteceu exactamente o oposto.

Os EUA ao perceberem que perderiam influência na Europa com a dissolução da NATO, não só a mantiveram, como, aproveitando-se de uma Russia fragilizada, “rasgaram” o acordo feito no fim da Guerra Fria, em que se comprometiam a não expandir a NATO para além dos países que já eram membros há altura, promoveram a adesão e aceitaram novos membros, vindos do antigo “bloco de Leste”.

Com o pedido formal de adesão da Ucrânia à NATO, a sua expansão iria cercar por completo a Rússia, criando-se desta foram uma situação insustentável, não só para o “orgulho nacional russo”, mas também para a sua defesa, em caso de uma hipotética, mas não impossível, guerra com o Ocidente.

E mais uma vez, verificamos que existem duas bitolas completamente diferentes entre aquilo que o “Ocidente” diz e, aquilo que o “Ocidente” faz.

 

O Protocolo de Misnk

O Ocidente acusa os russos de com este ataque à Ucrânia, terem rasgado o “Protocolo de Minsk”, mas na realidade a Ucrânia, já o tinha rasgado há muito.

O acordo foi assinado a 5 de Setembro de 2014, entre a Ucrânia, a Rússia, em representação da República Popular de Donetsk (DNR) e da República Popular de Lugansk (LNR), para pôr fim à guerra no leste da Ucrânia ou mais precisamente, à guerra na região do Donbas.

Durante os encontros que levaram à assinatura do protocolo, entre outros assuntos, ficou garantido que:

O cessar-fogo seria imediato. O poder na Ucrânia, seria descentralizado e passaria a existir autonomia governativa para o Donetsk e o Lugansk, com eleições locais para estabelecer os respetivos governos regionais. Seria também efectuada a retirada imediata, dos grupos armados ilegais, equipamento militar, assim como dos combatentes e dos mercenários pró-governamentais na região.

No entanto, apesar deste “protocolo” a realidade foi outra completamente diferente. A Ucrânia não reconheceu a autonomia das repúblicas do Donbas, pois estas eram “pró-russas” e, durante 8 anos de guerra continua, a Ucrânia “assassinou” mais de 15.000 pessoas nessa região.

Ora, aqui temos novamente duas bitolas para o mesmo peso. A Ucrânia “rasga” o acordo e mata 15.000 cidadãos pró-russos e o Mundo Ocidental, nem uma linha escreve sobre o assunto. A Rússia invade a Ucrânia, e o Ocidente acusa Putin de rasgar o Protocolo de Minsk (quando este já tinha sido rasgado pelos ucranianos) e de ser “criminoso de guerra”.

Mas esta “guerra” Leste/Ocidente e esta diferença de bitolas, não se fica por aqui.

 

O 11 de Setembro

Com os supostos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 em solo americano, os Estados Unidos passaram a fazer aquilo a que eles chamaram, de guerras preventivas contra quem “minasse” a sua segurança e, deixaram bem claro que quem não estivesse do lado deles, estaria contra eles.

Os resultados dessa política, entre outras situações desastrosas, como por exemplo a situação da Líbia, em África, foram duas grandes guerras: a do Afeganistão em 2001 e a do Iraque em 2003. A primeira foi para controlar a região central da Eurásia e, a segunda, para atender ao interesse privados da indústria petrolífera. Mas na realidade, ambas visavam drenar recursos públicos americanos para a indústria bélica.

Novamente verificamos aqui, a existência de duas bitolas diferentes. Uma para os EUA e os seus aliados (Ocidente) e outra claramente para a Rússia que graças a esta politica, voltava a ser considerada inimigo numero 1 do estado Norte Americano.

 

Volodymir Zelensky

Em 2014, um golpe de estado articulado pelos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia (apesar de oficialmente o negarem) derrubou o governo ucraniano, então aliado de Moscovo, fazendo subir ao poder, Viktor Yanukovych, um pró americanista, através de eleições que, segundo o Supremo Tribunal da Ucrânia veio a descobrir, tinham sido largamente manipuladas.

Em 2019, foi eleito para presidente, Volodymir Zelensky, cujo programa eleitoral teve como promessas, massacrar os separatistas em Donbass e solicitar o ingresso da Ucrânia na NATO, ou seja, a sua plataforma era a de rejeitar o Protocolo de Minsk e fazer uma aproximação clara ao Ocidente e aos EUA. Logo, seria de esperar que o conflito iria escalar, chegando à actual situação.

 

A crise humanitária

Seria de esperar que aqui não existissem divergências, mas infelizmente, também aqui existem bitolas diferentes, para situações similares. Senão vejamos.

Há vários anos, que se verifica uma crise humanitária, devido à guerra de Cabo Delgado, em Moçambique, no entanto o mundo não entrou em comoção, o que nos leva a pensar. Se Cabo Delgado não fosse Cabo Delgado, mas sim uma cidade da Ucrânia, a reacção, teria sido outra?

Os ecos da seca e da fome no sul de Angola já chegaram a Portugal, Brasil, EUA, França, e a mais países por este mundo afora, no entanto, não se veem, estádios, pavilhões, ruas ou iminentes figuras europeias comovidas com a situação, como se está a presenciar hoje com a crise humanitária da Ucrânia.

Quando foi da guerra civil angolana, e as famílias tentavam salvar os seus filhos da guerra, enviando-os para a europa, eram precisos, mil e um vistos e garantias financeiras, para ai poderem permanecer. Neste momento, os expatriados da Ucrânia, não só não precisam de vistos para entrar ou permanecer na europa, como ainda os vão buscar de autocarro.

Eu sei o que estão a pensar. Mas a guerra na Ucrânia é pior, já existem mais de 1 milhão de pessoas a precisar de ajuda… é verdade, mas quantos milhões de africanos se viram forçados a sair de África, devido a guerras promovidas pelo Ocidente no seu território e são ignorados pelo mundo?

Mais uma vez, verificamos existirem duas bitolas diferentes, para situações semelhantes.

 

Conclusão

O que se conclui com isto é que o “Ocidente” tem carta branca para fazer o que lhe apetece, enquanto “os outros” tem que ficar quietos no seu canto e não ripostar, ou seja, novamente duas bitolas para o mesmo tipo de situações.

A realidade é que devido à irresponsabilidade dos Estados Unidos em insistir na expansão da NATO em direção às fronteiras russas, provocando “a onça com vara curta” fomentaram uma guerra que atende aos seus interesses do complexo militar-industrial que, fora do Afeganistão e do Iraque, precisavam de um novo conflito para receber dinheiro público

Por causa disso, agora temos uma guerra na Ucrânia que pode escalar para um conflito de média intensidade ou pior do que isso, pois ao envolver diretamente uma potência nuclear, pairam sobre as nossas cabeças, não só uma hipotética 3ª guerra mundial, mas também uma guerra nuclear generalizada.

Putin deixou claro que não irá negociar os interesses estratégicos da Rússia e os Estados Unidos e o Reino Unido, demonstram com as suas posições, querer o conflito criando uma “guerra por procuração” que revitalizará o negócio do armamento militar. Claramente que negociações de paz, serão muto complexas.

No entanto a solução é simples. Basta os EUA, cumprirem o acordo feito com a Rússia no fim da Guerra Fria de não expansão da NATO e a Ucrânia cumprir os acordos de Minsk. Dessa forma Rússia não terá nem motivos, nem razão, para prosseguir com esta guerra. Só a diplomacia pode levar à paz, mesmo quando as bitolas, são diferentes.

 

O que achas desta situação? Com duas bitolas tão distintas, para o mesmo tipo de problemas, será que se conseguirá negociar a Paz? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

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Imagem:© 2013 Zdenek Bohm / Alamy

  • Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos. neste momento exerce as funções de Chefe de Redação da Mercados Africanos.

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