A Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA), prevista para entrar em vigor em janeiro de 2021,  facilitará a inserção do continente africano numa nova fase da globalização balizada  na tecnologia, afirmou Carlos Lopes, economista guineense, Professor na Nelson Mandela School of Public Governance, alto representante da União Africana (UA) para as Parcerias com a Europa e antigo Secretário Executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para a África.

“A África é um continente que fica muito dependente do ambiente internacional e não tem muito peso, por isto, precisa defender-se fazendo sua concha [a ZCLCA].”, disse Lopes em entrevista ao Mercados Africanos.

“Isto não quer dizer que a África vai viver separada do mundo, pelo contrário, as cadeias de valor hoje em dia são todas globalizadas. Trata-se mais de saber como a África utiliza esse potencial para integrar suas cadeias internas com as globais e, para integrar, precisa primeiro ter as cadeias internas bem estruturadas e é isto que a zona de livre comércio vai permitir, criando uma zona única não tarifária”, acrescentou o economista guineense.

Lopes avaliou que o mundo chegou a “um determinado tipo de híper globalização que não incluía aspetos fundamentais da sociedade, que são os aspetos sociais e ambientais, e agora há uma luta para tentar incluir estas dimensões, que esbarram no pensamento ultraliberal que prevaleceu até bem pouco tempo”.

Neste novo contexto, segundo Lopes, potências como os Estados Unidos, China e alguns países da Europa já começaram uma “luta para passar de uma fase da globalização em que o comércio tinha importância maior para uma fase da globalização onde a tecnologia vai ter uma importância maior”, e a África, que detém 3% do comércio global e menos de 1% das patentes registadas no mundo, precisa avançar em sua zona de livre comércio para se fortalecer.

Lopes também avaliou que a pandemia de covid-19 reforçou a necessidade de criação da ZCLCA.

“Os africanos acabaram se dando conta de que precisam acelerar seu processo [de integração comercial e industrialização] porque no fundo as soluções africanas [na pandemia] prevaleceram por causa de já haver a arquitetura da zona de livre comércio formada no continente (…) A covid-19 demonstrou que a África precisa fazer mais depressa aquilo que já tinha intenção de fazê-lo”, defendeu.

O economista lembrou que os passos para a implementação da zona de livre comércio em África não foram interrompidos pela crise sanitária global.

“Nós não fomos impedidos pela covid-19 de avançar, houve uma desaceleração de algumas etapas em termos de prazos, de datas, mas não se pôs de lado o processo”, afirmou.

“É extraordinário que no meio de uma pandemia tenham inaugurado o secretariado da zona de livre comércio, que  se tenha dado encaminhamento para a contratação do pessoal que vai integrar o secretariado e que se tenha avançado nos protocolos que estavam previstos para 2020”, concluiu Lopes.

Projeções do Banco Africano de Exportações e Importações (Afreximbank) indicam que a concretização da ZCLCA elevará em 35% as trocas comerciais regionais em África, gerando negócios na ordem de 135 mil milhões de dólares, num mercado comum com 1.200 milhões de habitantes.

O acordo para a criação da ZCLCA foi assinado por 54 países, e inscreve-se no quadro de um processo que prevê a constituição de um mercado comum e a implementação do Passaporte Único Africano.

Zona de livre comércio africana vai alterar negociações dos europeus na África

As negociações entre países da África e da Europa devem mudar com a abertura da Zona de Livre-Comércio Continental Africana (ZCLCA), marcada para ocorrer no início de 2021, avaliou Carlos Lopes, economista e alto representante da União Africana para as Parcerias com a Europa.

“Nós temos uma relação com a Europa que é muito dependente em termos de políticas de ajuda ao desenvolvimento ou de ajuda humanitária (…) Nós somos o terceiro parceiro comercial da Europa depois dos Estados Unidos e da China”, pontuou Lopes.

“Somos [parceiros] mais importantes do que o Japão, que toda a América Latina, mais importantes do que a Índia cerca de 3 vezes e, portanto, deveríamos ter uma negociação com a Europa muito diferente daquela que temos. Isto é uma boa demonstração da falta de força [da África] por não haver zona de livre comércio. A partir do momento em que nós tivermos uma vai ser diferente”, acrescentou.

O negociador da União Africana recordou que embora a União Europeia seja o principal parceiro económico do continente, o padrão das relações não é equilibrado, as nações africanas são fornecedoras de matéria prima e importadoras de produtos transformados.

 “A África acaba por ir a reboque de medidas comerciais que são tomadas na Europa, por exemplo, os subsídios a agricultura, que depois não permitem que a África possa exportar seus produtos agrícolas para a Europa porque há uma concorrência, entre aspas, desleal.

Lopes lembrou que a África tem interesse em se industrializar e tudo isto passa por protocolos e incentivos que são feitos em forma de tarifas, impostos alfandegários. Estas pautas precisam ser discutidas milímetro a milímetro entre os países”.

“Quando a África se apresenta na Europa com três diferentes [blocos para fazer estas] negociações é evidente que está perdida. Mesmo negociando como um [bloco] tem dificuldade, mas negociando em três [blocos] é muito mais difícil”, concluiu.

Projeções do Banco Africano de Exportações e Importações (Afreximbank) indicam que a concretização da ZLEC elevará em 35% as trocas comerciais regionais em África, gerando negócios na ordem de 135 mil milhões de dólares, num mercado comum com 1.200 milhões de habitantes.

O acordo para a criação da zona de comércio africana foi assinado por 54 dos 55 países que foram o continente.

 

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