O Tratado Continental Africano de Livre Comércio, previsto para entrar em vigor em janeiro de 2021, não deve alterar os acordos de comércio que o Brasil participa em África através do Mercosul (bloco que também inclui Argentina, Uruguai e Paraguai) no curto prazo, segundo dois especialistas consultados pelo Mercados Africanos.

Natália Dias, CEO do Standard Bank no Brasil, avaliou que como os termos finais não estão estabelecidos é difícil prever o impacto que o Acordo de Livre-Comércio Continental Africano (AfCFTA) terá sobre tratados firmados por países africanos com blocos e países de outras partes do mundo, incluindo o Brasil.

“Os termos totais do acordo de livre comércio em África ainda não estão estabelecidos. O acordo está num momento onde se estabeleceu os princípios básicos, mais ainda há algumas regulamentações que devem ser implantadas e não se sabe como isto mudará os acordos já existentes [com outros blocos]. Imagino que, num primeiro momento, a AfCFTA deve se sobrepor de alguma maneira”, frisou Natália Dias.

“Esta resposta ainda não está clara. A África tem vários acordos, não só com o Mercosul e o Brasil. Tem acordos com várias zonas do mundo”, acrescentou.

André Galhardo, economista-chefe da Análise Económica Consultoria, previu que a despeito da abertura da AfCFTA a parceira comercial do Brasil no continente africano não deve se alterar no curto nem no médio prazo.

“Não basta criar uma zona de livre comércio se a comunicação da África do Sul e o Congo, por exemplo, é muito problemática. É importante criar a zona de livre comércio, mas junto com isto outras mudanças importantes também devem acontecer”, pontuou Galhardo.

“O acordo é muito bom, mas para surtir efeitos palpáveis, que permitam que a África olhe para dentro, vai demorar muito tempo em razão da infraestrutura ruim que existe dentro do continente, entre os países africanos”, acrescentou.

Atualmente o Brasil participa através do Mercosul de um acordo de comércio com o Egito e outro acordo de comércio preferencial (ACP) com o SACU (união aduaneira formada pela África do Sul, Namíbia, Botsuana, Lesoto e Suazilândia).

“O acordo do Mercosul com o Egito funciona melhor. Já as regras do acordo entre Mercosul e o SACU despertam mais críticas. Ouço dos clientes que o acordo como SACU abrange uma quantidade de bens muito pequena, então na prática tem sido difícil para as empresas usarem este acordo (…) Acho que pode existir uma negociação maior do Mercosul com os africanos, mas estas questões estão abertas e não temos as respostas”, avaliou Natália Dias.

“A conversa está fria ainda. Acho que ela ainda deverá avançar”, acrescentou.

Já o especialista da Análise Económica Consultoria lembrou que a despeito de sua avaliação sobre o tempo que a zona de livre comércio africana deve demorar para apresentar resultados em razão de problemas internos do continente, o Brasil está a perder espaço no mercado africano há alguns anos porque não tem uma política clara voltada para o continente.

“O Brasil tem deixado de ser um importante parceiro comercial de alguns países africanos e isto trará problemas (…) Apesar dos acordos que o Brasil tem com países africanos isto não tem se traduzido em aumento das nossas relações comerciais”, pontuou.

Questionada sobre a capacidade de o Brasil de influenciar renegociações comerciais com a África dentro do bloco sul-americano, a CEO do Standard Bank no Brasil avaliou que isto é totalmente possível já que o país é a economia mais relevante no Mercosul.

“Se tem alguém que tem poder de influenciar a decisão do bloco [Mercosul] é o Brasil. Agora se o Brasil vai querer ficar dentro dos acordos já existentes no Mercosul ou flexibilizar para fazer acordos bilaterais com os países africanos é uma outra coisa que também está em aberto”, pontuou.

Natália Dias avaliou que as empresas brasileiras tem demonstrado interesse na zona de livre comércio em África, que terá um mercado com 1,3 mil milhões de pessoas.

“É um marco e deve sim atrair interesse maior de empresas para investir no continente”, ressaltou.

A executiva lembrou, porém, que o país sul-americano e suas empresas têm visto a África apenas como um destino de exportação e isto acarretou uma perda de influência.

“Se o Brasil continuar vendo a África como um mero destino de exportação ele vai continuar perdendo espaço no comércio. No topo da agenda africana estão prioridades como aumentar o comércio interno e estimular a industrialização do continente para reduzir sua dependência das importações. As empresas, para serem bem-sucedidas, precisam achar uma maneira de investir no continente nem que seja para agregar valor. Não é preciso ter a produção inteira lá. Você pode exportar uma parte [da produção] do Brasil, mas agregar valor lá [na África] para se integrar a economia”, destacou Natália Dias.

Galhardo também disse acreditar que a relação com a África deve ser reavaliada e ir além do comércio.

“Resta para nós reavaliarmos essa parceria comercial Brasil-África, tentar vender produtos de ponta para o continente africano e ir além disso, ou seja, trocar tecnologia (…) O potencial que a Nigéria tem para parceria com os brasileiros, por exemplo, é imenso. A economia nigeriana já começa a chegar perto das grandes economias globais”, frisou o economista.

Natália Dias reiterou que para aumentar trocas comerciais em África é preciso retomar investimentos diretos naquele continente.

“As empresas europeias, chinesas e americanas que estão tendo sucesso em África são aquelas que estão investindo no continente africano”, finalizou.00

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